Dados explicam virada e história de Lula na eleição – 26/10/2026 – Política

O presidente Lula (PT) conquistou a reeleição neste domingo (25) em uma virada inédita do primeiro para o segundo turno nas eleições presidenciais desde a redemocratização. Nunca antes a diferença entre os dois principais candidatos havia sido tão pequena no primeiro turno, mas o resultado final acabou sendo mais confortável para o petista do que o da eleição anterior.

A eleição também marca o maior volume absoluto de votos na história das campanhas presidenciais (64 milhões) e a ampliação do recorde de eleito mais velho para a Presidência.

EFICIÊNCIA NO SEGUNDO TURNO

Embora não seja possível saber exatamente quanto do crescimento do petista foi fruto de convencimento de faltantes, conquista dos candidatos da terceira via ou virada de voto, o saldo de possibilidades entre turnos permite afirmar que a eficiência de Lula para conquistar votos no segundo turno é 2,7 vezes a de Flávio.

O total de votos possíveis de serem conquistados entre os turnos somou 14 milhões, divididos entre: os 9,3 milhões de eleitores que votaram nos outros candidatos, 1,8 milhão de votos inválidos (brancos e nulos) a menos e as 3 milhões de pessoas a mais que compareceram.

Lula teve 10,3 milhões de votos a mais que sua própria votação no primeiro turno, já Flávio Bolsonaro (PL) cresceu em 3,7 milhões de sufrágios. Ou seja, fazendo uma estimativa de 14 milhões de possibilidades de novos votos, Lula conseguiu converter quase 3 em cada 4.

Além de reverter a desvantagem de 2,2 milhões de votos em relação a Flávio no primeiro turno, Lula conseguiu abrir uma vantagem de 4,4 milhões sobre o adversário no segundo, terminando 3,58 pontos percentuais à frente.

A distância é maior que os 2,1 milhões a mais que teve sobre Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno de 2022, no que continua sendo o resultado de eleição mais acirrado da história (1,8 ponto percentual de diferença).

PRIMEIRA VIRADA ENTRE TURNOS

O sistema de votação em dois turnos foi introduzido na Constituição de 1988. Lula é o primeiro candidato a não ser o mais votado no primeiro turno e ainda assim vencer uma eleição presidencial no país. Flávio obteve 47,03% dos votos válidos na primeira rodada, contra 45,16% do petista.

Em 2014, Dilma Rousseff (PT) chegou a aparecer atrás de Aécio Neves (PSDB) nas pesquisas do segundo turno e venceu, mas havia liderado o primeiro turno.

RECORDE DE VOTOS ABSOLUTOS

Lula terminou o segundo turno com 64,25 milhões de votos válidos, a maior votação absoluta em uma eleição, que também registra o seu maior eleitorado, de 158,7 milhões. O petista amplia o recorde que já havia estabelecido em 2022, com 60,3 milhões.

Em termos proporcionais, a marca não supera a de 2002. Naquele ano, Lula venceu José Serra (PSDB) com 61,27% dos votos válidos, seu melhor desempenho percentual na disputa pelo Planalto.

QUEDA RECORDE DE ABSTENÇÃO NO 2º TURNO

A taxa de abstenção no primeiro turno, em 4 de outubro, foi de 21,08%, a mais alta para uma primeira rodada. No segundo, a ausência caiu para 19,22%. A queda entre os turnos, de 1,86 ponto percentual, bateu recorde.

Até 2022, a abstenção sempre havia subido no segundo turno. A redução ocorreu pela primeira vez naquele ano, quando caiu 0,38 ponto. Os votos brancos e nulos somaram 3,24% neste domingo, o menor índice em eleições presidenciais neste século, considerados os dois turnos.

PRIMEIRO A VENCER QUATRO ELEIÇÕES E O MAIS VELHO A TOMAR POSSE

Lula é o primeiro brasileiro a ser eleito presidente quatro vezes. Ao todo, disputou sete eleições e venceu quatro —além disso, chegou a registrar candidatura em 2018, mas foi barrado pela Lei da Ficha Limpa.

Ao fim do quarto mandato, terá governado o país por 16 anos, o maior período de um presidente sob a democracia. No tempo total no cargo, fica atrás apenas de Getúlio Vargas, que governou por 18 anos e seis meses em dois períodos e foi eleito pelo voto direto uma única vez, em 1950.

Lula assume em 5 de janeiro de 2027, com 81 anos, que completa nesta terça (27). Com isso, amplia o recorde de presidente mais velho a tomar posse no país, marca que já detinha desde 2023, quando assumiu aos 77.

Ao deixar o Planalto, em 5 de janeiro de 2031, terá 85 anos. Antes de Lula, o mais velho a assumir havia sido Michel Temer (MDB), efetivado em 2016 aos 75 anos.

VIRADA EM MINAS

Pela primeira vez, segundo dados da Justiça Eleitoral, um candidato à Presidência que perdeu em Minas Gerais no primeiro turno conseguiu virar e vencer no segundo turno. Segundo maior colégio eleitoral do Brasil, o estado costuma espelhar as eleições nacionais. Lula conquistou 1,1 milhão de votos a mais do que na primeira rodada, vencendo Flávio por 50,43% a 49,57% no estado.

Flávio venceu no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e Lula no Nordeste e no Norte, sendo essa última região uma virada de cerca de 1.000 votos em relação ao primeiro turno, onde havia perdido. Lula ampliou a margem em relação a Flávio em todas as unidades da Federação e também venceu no exterior.

Em Goiás, estado de Ronaldo Caiado (PSD), que concorreu no primeiro turno, Flávio obteve maioria, mas Lula conseguiu crescer 9,3% entre os dois turnos. O petista também ampliou o alcance em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, em 7,9%.

Enquanto Lula manteve crescimento nos estados do Nordeste, seu principal reduto, Flávio perdeu votos ou estagnou na região. O petista ganhou em 13 estados, enquanto o candidato do PL ganhou em 13 e no DF.

13 CAPITAIS

O petista venceu em 13 capitais brasileiras, sendo duas de virada, Rio de Janeiro e Macapá. Mesmo nas capitais em que perdeu, conseguiu ampliar votos em relação ao adversário.

Lula venceu em 2.875 municípios, sendo 211 de virada –120 delas no Sudeste e 40 no Sul. Entre as cidades viradas, 20 têm mais de 100 mil habitantes.

DUAS HORAS A MAIS DE VOTAÇÃO (QUE NÃO FIZERAM A DIFERENÇA)

Outro fato inédito neste segundo turno foi a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que estendeu o horário de votação das urnas em duas horas, atendendo a um pedido do PT devido a relatos de problemas no transporte público no país. A campanha de Flávio também solicitou a prorrogação do horário para regiões afetadas pela chuva.

O encerramento passou das 17h para 19h por decisão do ministro Cristiano Zanin, seguida por Kassio Nunes Marques, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A ordem da Justiça Eleitoral saiu perto das 17h, quando diversas seções já haviam encerrado a votação. A eleição seguiu apenas nos locais em que a votação não havia sido encerrada.

A prorrogação foi usada como argumento para Flávio não reconhecer a derrota. Em discurso em Brasília, o senador disse que a decisão de Zanin, ex-advogado de Lula, mudou as regras durante a votação e que pediria anulação da eleição.

Apenas 34.330 votos, ou 0,03% do total, foram registrados após as 17h de domingo, valor insuficiente para alterar o resultado do pleito.

Fonte: Folha de S. Paulo