Lugar histórico de medição de forças políticas e batalhas eleitorais, a avenida Paulista, em São Paulo, parecia ter guinado à extrema direita nos últimos anos. Grandes manifestações de protesto na região, convocadas por seguidores de Jair Bolsonaro e opositores do atual governo, chamavam mais atenção do que os movimentos da esquerda.
Essa mudança deixava uma percepção de avanço conservador no país e era agravada pela apropriação das cores da bandeira brasileira. No Brasil e no mundo, a extrema direita, há tempos, saiu do armário e perdeu a vergonha de brigar contra a democracia em praça pública.
A manifestação do PT do último sábado (24) para reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), porém, indica uma reversão ao menos momentânea dessa tendência e acaba com a sensação de apatia de grupos mais progressistas. Raras vezes se viu tanta gente na avenida disposta a mudar o jogo político.
Quem estava lá viu uma multidão alegre e confiante na virada eleitoral. Ao menos 12 das 18 quadras da Paulista foram ocupadas, assim como vias transversais e laterais, como a alameda Santos. Pessoas vestiam camisa amarela, embora o vermelho fosse dominante.
Para caminhar 50 metros, principalmente nas proximidades do epicentro da manifestação, o Masp, se gastava entre cinco e dez minutos. Embora não tenha havido uma medição oficial, é possível dizer que havia dezenas, talvez centenas de milhares de pessoas reunidas em prol da democracia.
As grandes manifestações na Paulista começaram logo depois da abertura política após a ditadura militar. Em 1992, a avenida recebeu a campanha pelo impeachment do presidente Fernando Collor.
Posteriormente, aconteceram na Paulista grandes protestos das Jornadas de Junho, deflagradas pelo aumento das tarifas do transporte público. O movimento, que se expandiu pelo país, ganhou força devido à repressão policial no dia 13 de junho de 2013 que deixou mais de cem feridos. Sua pauta foi ampliada para o combate à corrupção e a melhoria dos serviços públicos. Entre 2015 e 2016, várias manifestações pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Entre 2024 e 2026, a extrema direita dominou o campo de batalha e organizou pelo menos sete atos públicos de grande porte na Paulista, como o de fevereiro de 2024, que reuniu 185 mil pessoas, segundo o Monitor/USP. No ano passado houve manifestações bolsonaristas em junho, agosto e setembro, sempre com milhares de participantes.
Em 2026, os seguidores do candidato derrotado de oposição, Flávio Bolsonaro, se reuniram mais três vezes na Paulista, em 1º de março, 7 de setembro e 18 de outubro, seis dias antes da manifestação pró-Lula. Nesse último ato público, a USP/Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) estimou o número de participantes em 71,9 mil.
Do lado da esquerda houve menos mobilizações nos últimos três anos. Em julho de 2025, 15 mil pessoas tomaram a avenida exigindo a taxação dos super-ricos e o fim da escala 6×1. Em setembro do mesmo ano, cerca de 42 mil pessoas foram às ruas para repudiar a PEC da Blindagem e o PL da Anistia, ainda segundo o Monitor do Debate Político do Cebrap em parceria com a ONG More in Common. Neste mês, aconteceram dois atos gigantescos da campanha presidencial.
A Paulista é um símbolo da democracia, um termômetro do ânimo político brasileiro. O que acontece na avenida mais conhecida de São Paulo alcança repercussão nacional. O sucesso da última manifestação teve consequências diretas sobre o resultado da eleição de domingo. Dá para dizer que a vitória de Lula teve forte influência da presença maciça do povo nas ruas.