A universidade tem em seu tripé —ensino, pesquisa e extensão— uma assimetria de importância mesmo sem existir hierarquia, princípio que é previsto no artigo 207 da Constituição. Na prática, porém, os três pilares não recebem o mesmo grau de valorização nem os mesmos incentivos.
A extensão universitária ainda é, muitas vezes, percebida como o “patinho feio” da universidade. Essa visão, no entanto, merece ser tensionada.
Se o mercado de trabalho demanda profissionais capazes de compreender desafios concretos e construir soluções viáveis, a prática extensionista pode ocupar um papel relevante na formação de estudantes de graduação e pós-graduação, ampliando repertórios, aproximando-os de diferentes realidades e criando espaços para testar hipóteses.
É na atuação com o território, na descoberta da relação entre as causas complexas e sistêmicas, na leitura do contexto, na confecção de soluções em intercâmbio com as pessoas, os saberes e necessidades locais, conectado ao embasamento científico da pesquisa, que esse aluno-criativo-solucionador de problemas reais se constrói.
Um exemplo potente de projeto de extensão que extrapolou os muros da universidade e virou política pública é o programa Pista (Parques de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental), que surgiu inicialmente na favela da Rocinha (RJ) sendo o primeiro parque de inovação estabelecido em uma comunidade periférica.
Sua criação foi viabilizada por meio de recursos da Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) em parceria com universidades, secretarias estaduais e apoio estratégico do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
O Pista financia e acelera negócios de impacto social, tecnológico e ambiental criados por moradores locais, apoiando o empreendedorismo e a inovação sustentável em favelas e comunidades.
Com isso na cabeça, e a inspiração após inúmeras conversas com professores da Rede Academia ICE, surgiu a necessidade de estruturar um guia, no ensejo da lei da curricularização da extensão de 2018, que colocasse a extensão nessa potência que é: unir ensino-pesquisa-tecnologia-território a soluções socioambientais para o fomento do empreendedorismo de impacto.
A proposta é uma extensão que fuja de práticas assistencialistas e insira na sua essência princípios inegociáveis: diálogo e criação com o território, embasamento científico e resolução de problemas socioambientais.
Ou seja, a extensão é uma avenida de mão dupla. Esse é o legado que a universidade deixa nos territórios aos quais ela é vinculada e exerce, assim, sua função social.
Porque, quando penso no impacto que eu tive ao ouvir a extensão ser chamada de “patinho feio” do tripé, penso também nos tantos paradoxos do nosso tempo: produzimos alimento suficiente, mas ainda convivemos com a fome; nunca estivemos tão conectados, mas a solidão é uma preocupação crescente; avançamos em direitos, mas seguimos enfrentando desigualdades profundas.
Talvez o maior paradoxo seja este: temos cada vez mais conhecimento, tecnologia e capacidade de criar soluções, mas ainda encontramos enorme dificuldade para transformar tudo isso em resposta à altura dos problemas que enfrentamos.
Soluções existem, mas não escalam. Problemas são sistêmicos, mas instituições são fragmentadas. Temos conhecimento, mas dificuldade de agir coletivamente. Buscamos eficiência, mas precisamos também de resiliência.
É justamente aí que volto à extensão. Se os desafios não cabem dentro das fronteiras de uma disciplina, de uma instituição ou de um setor, nossas formas de produzir conhecimento também não podem ficar confinadas a elas.
Talvez seja hora, então, de tirar a extensão do lugar de “patinho feio” e reconhecê-la como uma das pontes mais poderosas entre o conhecimento que a universidade produz e as transformações que a sociedade precisa construir.