Marilena Chaui: Jovens garantiram a virada de Lula – 31/10/2026 – Ilustríssima

Existe um debate essencial a ser travado hoje, defende a filósofa Marilena Chaui, 85: a luta contra um novo tipo de totalitarismo, o neoliberal.

Neste episódio, a professora emérita da FFLCH-USP e uma das intelectuais mais importantes do país diz que o neoliberalismo tenta transformar todas as instituições sociais em empresas, além de reduzir as pessoas a empresárias de si mesmas, empobrecendo a nossa existência. Para ela, como a extrema direita está enraizada nessa ideologia, os dois combates precisam se combinar.

Chaui é conhecida por repetir o quanto odeia a classe média e diz aqui que essa é uma das coisas que passou a vida fazendo. A filósofa vê a classe média, em uma chave marxista, como a correia de transmissão dos valores que garantem o privilégio da burguesia e a dominação dos trabalhadores, justificando a exploração capitalista e sufocando os conflitos sociais —daí tanto horror.

Esses temas são discutidos no livro “Democracia e Populismo: a Nova Classe Trabalhadora” (Cortez), que também tem ensaios sobre as raízes do autoritarismo brasileiro e a subjetividade depressiva e narcisista do mundo digital.

Na entrevista, Chaui esboça uma interpretação da vitória de Lula (PT) no segundo turno das eleições, que ela atribui a uma avalanche de jovens que tomaram as ruas do país por perceber tanto os riscos da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) quanto os contornos do futuro do Brasil sob a extrema direita.



Vejo o resultado da eleição mais como a rejeição de um perigo muito grande de uma tomada da economia e do poder político pela extrema direita. Penso que isso ficou claro, sobretudo entre os jovens, porque foi um movimento de juventude no país inteiro, de uma só vez, como uma avalanche, que quebrou o risco da eleição de Flávio Bolsonaro



Não é só uma discussão sobre o presente, mas uma percepção do que vai acontecer no futuro. É uma aposta no futuro, e isso foi muito mobilizador. Eles se deram conta do que aconteceria com a concretização de alguns pontos da proposta de Flávio, mas, acho que sobretudo, a questão das terras raras, porque os jovens sabem o que significam esses cristais em termos de um salto tecnológico para além do século 21. Diria que foi uma aposta nas políticas sociais de esquerda, mas também no futuro tecnológico soberano do país

A autora também aborda a fuga do Brasil do candidato derrotado, que, para ela, não surpreende considerando a trajetória da família e a proximidade dos Bolsonaro com o universo da ilegalidade.

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O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.

Já participaram do Ilustríssima Conversa Sérgio Abranches, pesquisador que cunhou o termo presidencialismo de coalizão para nomear o sistema político-partidário brasileiro, Letícia Cesarino, antropóloga que desenvolve pesquisas sobre o extremismo em plataformas digitais, André Singer, cientista político e autor de livros de referência sobre as contradições do lulismo, Renato Meirelles, pesquisador da classe C, a historiadora Anita Prestes, filha do líder comunista e de Olga Benário, Ronaldo Lemos, que reflete sobre meios para se proteger da tecnologia, Dora Kaufman e Giselle Beiguelman, autoras de obra sobre criatividade e inteligência artificial, Djamila Ribeiro, que relançou “Lugar de Fala”, Jairo Nicolau, cientista político que investiga as transformações do eleitorado brasileiro, Paula Sibilia, ensaísta que discute o solo moral das sociedades contemporâneas, entre outros convidados.

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Fonte: Folha de S. Paulo