Dia de Finados expõe desprezo moderno pelos mortos – 02/11/2026 – Luiz Felipe Pondé

Lembro-me de que, há anos, no Dia de Finados —2 de novembro—, a avenida dr. Arnaldo, aqui na zona oeste de São Paulo, nas imediações do cemitério do Araçá, nas bancas de flores, o trânsito era bem intenso. Essa intensidade arrefeceu. Essa redução da intensidade é indicativa da perda de lugar dos mortos em nossas vidas, nossas famílias e nossas cidades.

Já não se celebram os mortos. Já não se pensa neles como alguém a quem devemos o mundo e a vida, pelo contrário, muitos discursos atuais falam deles como culpados por tudo de ruim que existe, e que, portanto não merecem qualquer respeito de nossa parte.

Esse é um dos inúmeros exemplos da estupidez arrogante e ruidosa da nossa modernidade. Um exemplo crasso dessa estupidez ruidosa é o fato de que muitos daqueles que praticam esse desprezo nunca passaram por nem um décimo pelo que nossos ancestrais passaram, mas a soberba é o pecado máximo dos modernos.

O culto dos ancestrais, traço presente em muitas religiões tradicionais, às vezes associadas aos povos ditos “primitivos” —a moçadinha politicamente correta condena essa expressão, mas, como toda pessoa que é politicamente correta e, portanto, mentirosa, essa moçadinha nega a expressão, mas acredita nela no fundo do seu coração falso— é um indicativo de respeito e gratidão aos que nos legaram a vida e o mundo. Cultuar esse legado é uma forma de amor à vida e ao mundo.

Aliás, vale lembrar que hoje a palavra “legado” está na moda. Tem até gente de 15 anos mandando a IA escrever um livro sobre o legado desses 15 anos de vida dela. O século 21 é o século mais ridículo da história até aqui, por isso mesmo, condenado à lata de lixo dos livros de história do futuro, a menos que algo de significativo aconteça até o final dele.

A importância dos ancestrais nessas formas de cultos tradicionais não fala só da gratidão que os vivos devem aos mortos. Fala, antes de tudo, da potência deles, justamente porque estão mortos. Essa potência demanda dos seus descendentes vivos atenção, sacrifícios, orações, liturgias, alimentos oferecidos nos locais em que eles descansam, ou seja, nos locais onde estão seus túmulos. Esses locais são, portanto, espaços sagrados de culto. Os antigos praticavam essa forma de culto.

Esses cultos eram formas de gratidão, eram práticas de homenagem e pedidos de ajuda aos ancestrais para que eles ajudassem os seus descendentes vivos a enfrentar os desafios da vida. Mas (e isso é fundamental) caso os espíritos dos ancestrais não recebessem essas honrarias, eles poderiam se transformar em demônios ou espíritos malignos que atormentariam seus descendentes ingratos, causando-lhes sofrimentos e desventuras.

Se voltarmos ao desprezo que a sociedade moderna tem pelos seus mortos, se esses cultos estivessem certos na sua hipótese, podemos imaginar quantos milhões de demônios existem por aí a nos espreitar. Mas, na verdade, não há qualquer risco, porque esses demônios não passam de representações e imagens que criamos na nossa cabeça. Ou, se existem, são obrigados a serem nossos servos para nos fazer ter sucesso sempre.

O mundo espiritual hoje é visto como mero auxiliar, sem nenhum respeito, pela maioria dos vivos. Fato evidente. O mundo espiritual, hoje, é pleno de escravos —ou escravizados, como reza a cartilha do politicamente correto.

A famosa citação do filósofo britânico Edmund Burke no seu clássico “Considerações Sobre a Revolução na França” é emblemática dessa discussão. Eis a citação: “A sociedade é um contrato (…) não apenas entre os vivos, mas entre os mortos, os vivos e os que ainda estão por nascer”. A sociedade é uma comunidade moral entre as gerações.

Burke não está fazendo referência aos cultos dos túmulos dos nossos mortos, ele está criticando a tendência moderna, presente de forma radical nos revolucionários franceses, de acreditar que a sociedade é feita apenas de vivos, presa num eterno presente cego.

Os mortos dos quais Burke fala aqui são todas as pessoas que viveram antes de nós e que construíram toda uma cultura —ideias, práticas, leis, valores, crenças, instituições, vínculos— graças às quais temos um lugar para nascermos e crescermos. Essa cultura permanece conosco, nos nutre, criamos a partir dela, nos desenvolvemos a partir dela. Não há como zerar o tempo. O mundo não começou quando nascemos e não acabará quando morrermos.

Quem acredita que o tempo existe para nos trazer ao mundo —ou seja, que o nosso ego, e nossas manias e ideiazinhas desprovidas de substância são o que há de mais sublime—, não entendeu nada.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Folha de S. Paulo