A cilada do ajuste fiscal – 03/11/2026 – Opinião

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Desde a redemocratização, nenhum candidato havia virado uma eleição presidencial no segundo turno. Lula virou —e não foi sozinho. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente e, no dia seguinte, estudantes já estavam nas ruas.

A mobilização nasceu sem convocação da campanha e cresceu por três semanas, até tomar as ruas de todo o país na véspera da votação. Lula, que subiu nos palanques das Diretas Já, disse nunca ter visto nada igual. No domingo (25), recebeu 64,3 milhões de votos, a maior votação já obtida por um candidato a presidente.

Quem foi às ruas tinha o que defender. Entre a reta final do primeiro turno e a véspera do segundo, a agenda de Lula ficou clara: Bolsa Família maior, fim das bets, tarifa zero no transporte nos fins de semana, promessa de não mexer na aposentadoria de quem ganha um salário mínimo e fim da escala 6×1, promulgado no meio da campanha. Foi em torno dessa agenda que se formou a maioria que derrotou o bolsonarismo.

Lula sabe de onde veio a vitória. Numa live três dias antes da votação, disse que “a participação do povo nesta campanha, a saída na rua dos estudantes, das mulheres, dos trabalhadores, vai nos obrigar a fazer um novo jeito de governar este país”. No discurso da vitória, lembrou que não foi ele quem escolheu o Congresso, “foi o povo que escolheu”, e falou em “fazer o povo participar mais das nossas decisões”. Num Parlamento em que o PL terá sozinho quase tantos deputados quanto todos os partidos da coligação de Lula juntos, não há outro caminho. A força do governo estará menos nos cargos e nas emendas do que no povo mobilizado que o elegeu.

É essa força que está em risco. O mercado, que apostou em Flávio Bolsonaro e perdeu, reagiu ao resultado com uma queda de quase 14% na Bolsa e agora cobra um ajuste fiscal. A receita defendida por economistas do mercado e por deputados do centrão é desvincular do salário mínimo as aposentadorias, as pensões e o BPC, o benefício pago a idosos e pessoas com deficiência pobres, além de conter os pisos constitucionais de saúde e educação.

A conta tem endereço: os 28 milhões de aposentados e pensionistas que ganham até um salário mínimo e quem depende do SUS e da escola pública. Se o salário mínimo crescer 2% ao ano acima da inflação, em dez anos quem hoje recebe o piso passaria a receber pouco mais de 80% dele. É a mesma gente que virou a eleição.

Por isso, votaremos contra qualquer proposta que desvincule do salário mínimo as aposentadorias, as pensões e o BPC, venha ela com esse nome ou disfarçada de regra técnica —e contra qualquer mudança que reduza os pisos de saúde e educação. Se o governo decidir mexer nas contas, que mexa nos ganhos do andar de cima, de quem nunca precisou ir às ruas para ser ouvido.

A extrema direita perdeu a Presidência, mas saiu da eleição com quase 60 milhões de votos. O que restar da mobilização deste segundo turno será a principal defesa do país contra a volta do bolsonarismo. Ao votar, Lula disse: “O que o povo fez comigo nesses dias é uma coisa que não tem como pagar”. Há um jeito de começar a pagar: não mandar a esse povo a conta do ajuste.

Fábio Felix

Fernanda Melchionna

Glauber Braga

Jones Manoel

Sâmia Bomfim

Vivi Reis


(PSOL)

Renato Freitas

(PT)

Integrantes da Bancada da Esquerda Radical

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Fonte: Folha de S. Paulo