Gestão Lula prepara negociação para aporte chinês no TFFF – 06/11/2026 – Ambiente

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está preparando uma nova rodada de negociações para convencer o regime chinês a aportar recursos no Fundo das Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). A China tem se esquivado do gesto sob a justificativa de que países desenvolvidos devem ser os principais financiadores de mecanismos globais de preservação ambiental.

Segundo fontes familiarizadas com as negociações, o governo brasileiro acredita que uma doação chinesa poderia impulsionar contribuições de outros países, visto que Pequim é uma das lideranças no combate às mudanças climáticas.

O compromisso mais recente foi assumido em outubro, quando a Holanda anunciou investimento de US$ 500 milhões um dia após a reeleição de Lula à Presidência. A iniciativa tem US$ 7,8 bilhões em caixa.

Brasil, Indonésia, Noruega, Alemanha, França, Luxemburgo e Reino Unido também fizeram aportes, além de alguns investidores privados. A expectativa de longo prazo é que o TFFF alcance US$ 125 bilhões, dos quais 20% viriam de fundos soberanos ou entidades filantrópicas e serviriam de garantia para atrair o restante no mercado privado.

Até agora, no entanto, Pequim tem utilizado como argumento nas negociações o princípio das responsabilidades comuns porém diferenciadas. Na agenda climática, esse princípio estabelece que países desenvolvidos devem liderar o financiamento e as ações de mitigação, uma vez que essas nações se beneficiaram historicamente do uso de combustíveis fósseis e enriqueceram com a emissão de gases de efeito estufa.

O conceito é aplicado em diversos contextos da diplomacia internacional e ganhou força na pauta ambiental ao ser incorporado à UNFCCC, o braço da ONU para mudanças climáticas.

Por enquanto, os chineses declararam apenas apoio político ao fundo, sem menção à possibilidade de aporte. Em novembro de 2025, enquanto a COP30 ocorria em Belém e logo após o lançamento do fundo, o porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, disse à Folha que a China acolhe a iniciativa.

“[Apelamos] aos países desenvolvidos para que forneçam apoio financeiro suficiente aos países em desenvolvimento, a fim de reduzir o desmatamento e a degradação das florestas tropicais”, afirmou.

O contra-argumento brasileiro é que, embora o fundo tenha sido pensado para beneficiar as nações em desenvolvimento, ele não prevê que os investimentos venham exclusivamente daquelas já desenvolvidas. Lula, por exemplo, foi o primeiro a anunciar um aporte no mecanismo, de US$ 1 bilhão. Depois dele, a Indonésia também assumiu o compromisso.

Apesar de ser a segunda maior economia do mundo, a China carrega a bandeira de país “em desenvolvimento” pela categorização da ONU e se esquiva de qualquer movimento que possa reclassificá-la como “desenvolvida”.

Ainda que seja hoje a nação que mais emite gases de efeito estufa em números absolutos, o país asiático já vem investindo pesadamente em ações climáticas não apenas no plano doméstico, mas também internacional.

Além disso, uma análise recente mostrou que, neste ano, as exportações chinesas de tecnologias limpas reduzirão as emissões de carbono em 450 milhões de toneladas de dióxido de carbono. O volume equivale às emissões anuais do Brasil decorrentes do consumo de combustíveis fósseis.

Fonte: Folha de S. Paulo