O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), recebeu nesta terça (27) o apoio formal de União Brasil e PP à reeleição para o comando da Casa, num movimento para esvaziar a candidatura da senadora Tereza Cristina (PP-MS).
A iniciativa, no entanto, rachou as bancadas, e parte delas não concorda com a adesão. A votação é individual e secreta.
Dentro do PP, além de Tereza, que pretende manter a candidatura, há senadores como Guilherme Derrite (SP), eleito com apoio da direita e publicamente contrário à reeleição do presidente do Senado, e dr Hiran (RR), que representa um estado onde o bolsonarismo é muito forte. A direita fez campanha criticando Alcolumbre por travar impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).
A estratégia de Alcolumbre é esvaziar os adversários. A oposição está dividida entre duas candidaturas: de Tereza e do senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência. A senadora é vista com maior potencial para obter votos ao centro, de partidos que devem compor a base do governo Lula (PT). Já Marinho aposta na maioria de direita eleita na próxima legislatura.
Alcolumbre procurou os presidentes do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e do União Brasil, Antônio Rueda, para construir a candidatura desde a vitória do presidente Lula (PT). O argumento é de que é preciso fortalecer o centro político, para que essas siglas parem de perder espaço para grupos mais à direita, como o PL, que terá a maior bancada do Senado ganhando cadeiras em cima dos partidos do centrão.
“Entendemos que a continuidade dessa aliança representa a estabilidade institucional e o equilíbrio político de que o Brasil precisa para seguir avançando nas pautas de interesse da população”, diz a nota, assinada por Nogueira e Rueda.
A vitória de Lula deu novo fôlego ao presidente do Senado, com a mobilização do governo a seu favor. Flávio Bolsonaro descartava uma aliança e pressionava pelo impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), principalmente Alexandre de Moraes, aliado do presidente do Senado. Cabe ao chefe do Legislativo dar início ao processo de afastamento dos ministros.
Nogueira declarou o apoio à revelia de Tereza e de outros parlamentares do PP. A ideia é que a adesão seja do partido, e que a bancada se manifeste num segundo momento. Procurado pela reportagem, ele não comentou. Os senadores eleitos devem se encontrar com Alcolumbre na tarde desta quarta (28) para ouví-lo.
Tereza Cristina fez campanha para Flávio Bolsonaro e, por isso, se enfraqueceu no centrão como alternativa. Ela era a favorita do grupo num cenário com o candidato do PL eleito presidente. Com o resultado do 2º turno, porém, lideranças do grupo passaram a considerar que Alcolumbre seria o melhor nome para unir a Casa e ainda manter diálogo com Lula.
Um dos movimentos que ocorre paralelamente é o do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que foi eleito para o Senado. Segundo aliados, ele almeja presidir a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) no próximo biênio. É a comissão mais importante.
No caso de Nogueira, integrantes do PP afirmam que a aliança com Alcolumbre é uma forma de se preservar e buscar um aliado com influência para ajudá-lo, já que ele ficará sem mandato a partir de fevereiro –ele perdeu a reeleição. O presidente do PP virou alvo da PF (Polícia Federal) pelas relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Alcolumbre conta com apoio do PT, MDB e PSD para disputar a reeleição, e receberá a adesão formal de União Brasil e PP, mas o cenário é difícil, reconhecem aliados. Por serem “donos” dos seus mandatos, senadores costumam negociar individualmente seus votos, tendo mais liberdadde para divergir da ordem dos seus partidos.
O PL terá 29 senadores, somados aos 3 do Novo. Os outros dois senadores do Amapá, de PSD e Podemos, também não votarão nele. PP e Republicanos também possuem senadores mais à direita e com eleições próximas.
Nas contas do presidente do Senado, é possível chegar a 48 votos, contando com defecções e traições dentro do PL, possibilitadas pelo voto secreto. Aliados indicam que ele terá um piso de 43 apoios. Para ser eleito, são necessários 41 votos. Marinho diz a aliados contar também com 48 votos.
Senadores que preferem Tereza ou Marinho dizem que os colegas podem apoiá-los por temer represália política. Parte da plataforma que levou a direita a conquistar mais cadeiras no Senado foi a campanha anti-STF. Já aliados de Alcolumbre destacam que a crise no Supremo tende a arrefecer até a próxima eleição e descartam represálias porque a votação para a presidência do Senado é secreta.
Fonte: Folha de S. Paulo