Certo momento, Amyr Klink decidiu cruzar o oceano Atlântico Sul em cem dias. A travessia teve início quando o navegador brasileiro partiu da Namíbia, na África, em junho de 1984, virou livro no ano seguinte e chega agora aos cinemas, sob a direção de Carlos Saldanha.
Em “100 Dias”, que estreia nesta quinta, a jornada divide a tela com dramas pessoais do explorador, como o gênio instável e sua relação com o pai autoritário, explorados em flashbacks. Enquanto atravessa águas solitárias, o protagonista relembra aqueles que o ajudaram a chegar ali e as frustrações que tenta superar.
“Gravamos quase todas as cenas do passado antes das cenas do mar, para que eu pudesse sentir falta dos outros atores durante os 80% do filme em que estaria sozinho”, diz o ator Filipe Bragança, a quem Klink confiou a história que o tornou conhecido.
Na época, após desembarcar na Bahia, o navegador compartilhou suas motivações com jornalistas. Entre elas, destacou que o feito inédito era um modo de reforçar a importância das relações entre a ciência e a natureza. Não à toa, a IAT, embarcação que usou na travessia, foi feita sob medida para a ocasião.
Numa cena do filme, por exemplo, o explorador e o engenheiro paulista José Carlos Furia, vivido por Duda Mamberti, criam um sistema que permitiria ao barco retomar a posição correta após capotar. No processo, Klink demora a entender a utilidade do recurso e se enfurece.
Quando a ferramenta é posta em prática, imagens reúnem passado e presente e a submersão na água, de certo modo, espelha o equilíbrio entre o protagonista e seus impulsos. “Todos buscamos conexões, e os filmes mais efetivos são aqueles em que o espectador tem trocas com a história”, afirma Saldanha.
Segundo ele, “100 Dias” tenta “tornar possível o impossível” ao retratar o elo entre o homem e a natureza. Para o verdadeiro Klink, que viu a adaptação exigir quase dez anos de desenvolvimento —inicialmente, o projeto seria dirigido por Breno Silveira, que morreu em 2022 por causa de um infarto—, a humanidade deve sempre lembrar que é refém da primeira.
“Apesar de todas as evoluções tecnológicas, que hoje nos permitem controlar informações, não podemos prever todas as alterações ambientais”, diz o navegador, cujo livro “Cem Dias entre Céu e Mar“, que narra a famosa travessia, virou um best-seller.
Ele cita o engenheiro Rafael Garcia, que, em agosto, tentou refazer a jornada marítima. Embora tenha feito a mesma rota, sua travessia exigiu mais 36 dias. “Há fenômenos que não fui pude perceber. O número de tempestades que Garcia pegou foi maior, e ele teve mais problemas com cracas [pequenos crustáceos marinhos] do que eu. Talvez o filme mostre a importância de se quebrar a arrogância.”
Dois anos após a travessia pelo Atlântico Sul, Klink participou de uma expedição nacional à Antártida, que motivou um projeto ainda mais ambicioso. Daí surgiu o Paratii, veleiro criado especialmente para suportar baixas temperaturas e que, entre 1989 e 1991, ficou preso ao gelo por mais de 600 dias. A estratégia deu segurança ao explorador, que, enquanto cuidava de geradores de energia, pôde estudar o inverno polar.
Essas e outras de suas expedições renderam sucessos de vendas, como “Paratii: Entre Dois Polos” e “Mar Sem Fim”. Hoje, Tamara Klink, uma de suas filhas, refaz os passos do pai na água e na literatura. Esse ano, aliás, ela foi alvo de polêmicas graças a uma publicação sobre seu livro “Bom Dia, Inverno“, que narra a sua ida à Groenlândia.
Na ocasião, Tamara fez um vídeo desencorajando o público a comprar a obra, citando o gasto de recursos e a geração de lixo envolvidos na produção de cópias. Criticada pelo mercado editorial, ela voltou atrás pouco depois.
Em “100 Dias”, para dimensionar as dificuldades que Klink enfrentou sobre o Atlântico Sul, como ataques de tubarões e correntes intensas, o diretor Carlos Saldanha recorreu a animais digitais, cenas de remo feitas na água e um tanque especial, equipado com uma tecnologia que simula ondas e tempestades.
Conhecido por animações como “Rio” e por títulos da saga “A Era do Gelo“, o diretor se firmou como animador nos Estados Unidos, onde mora há anos. Mesmo assim, tem resgatado as raízes brasileiras, nos últimos anos, a partir de projetos como “Cidade Invisível“, série da Netflix sobre lendas nacionais.
Saldanha compara os desenhos que fez e o mundo que criou para “100 Dias”. “Na animação, é comum a máxima ‘fale menos, mostre mais’. Eu sabia que esse filme teria poucos diálogos. É uma obra de experiência. O espectador precisa se sentir com o protagonista, não ouví-lo narrar.”
O diretor destaca a ambição técnica do projeto num momento em que o Brasil desperta a curiosidade de outros países, na esteira do Oscar de “Ainda Estou Aqui” e das indicações de “O Agente Secreto“.
“O objetivo era contar uma história nunca antes contada no Brasil. É o tipo de história que o público está mais acostumado a ver vindo de fora, mas que merecia a mesma grandiosidade, aqui dentro. Espero que seja uma provocação para os brasileiros perceberem que esses filmes também podem ser feitos aqui.”
Fonte: Folha de S. Paulo