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O Nobel retrata a ciência mundial? – 28/10/2026 – Ciência Fundamental

Alfred Nobel foi um engenheiro químico sueco, amante da literatura e da física. Em 1867, ele patenteou a dinamite, uma forma mais segura de utilizar a potente e instável nitroglicerina. O sucesso da invenção lhe permitiu estabelecer fábricas e laboratórios em mais de 20 países e financiar pesquisas em diferentes áreas.

Antes de morrer, Nobel destinou 94% de sua fortuna à criação de uma fundação para premiar contribuições notáveis à humanidade nas áreas de física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz. Entre 1901 e 2026, 1.036 pessoas e organizações foram laureadas, incluindo as cinco categorias e o prêmio de economia, iniciado em 1969. A premiação, porém, revela desigualdades persistentes na produção e no reconhecimento científico.

Uma das mais evidentes é a sub-representação feminina: as honrarias foram concedidas a mulheres apenas 70 vezes. A restrição histórica à educação ajuda a compreender essa disparidade, sobretudo nas ciências, mas não explica sua permanência. Entre 2017 e 2026, apenas 9 dos 78 laureados nas áreas científicas eram mulheres; neste ano, os três prêmios foram concedidos a seis homens.

Ao longo da história, diversas cientistas foram preteridas pelo Nobel, a despeito de suas contribuições fundamentais. Ao premiar descobertas iniciadas décadas antes, a honraria também reflete desigualdades históricas no acesso à pesquisa, na progressão acadêmica e no reconhecimento entre pares.

Outra disparidade é a concentração de laureados com atuação em instituições europeias e norte-americanas. A sub-representação do Sul global está relacionada ao colonialismo, à distribuição desigual de recursos e às barreiras de acesso a redes internacionais de prestígio. É significativo que nenhum cientista negro tenha recebido o Nobel de Física, Química ou Medicina.

O modelo de premiação também recebe críticas pela regra que limita a três o número de pessoas que podem compartilhar o prêmio, numa época em que a pesquisa é frequentemente realizada por grandes equipes e redes de colaboração. Além disso, muitos dos problemas mais relevantes da atualidade exigem a integração de conhecimentos de diferentes áreas, rompendo as fronteiras convencionais entre as disciplinas. Pesquisas fundamentais sobre mudanças climáticas, ecologia, geociências e biodiversidade, por exemplo, são de grande relevância para a compreensão do planeta, mas podem ter dificuldades para se encaixar nas categorias existentes.

Assim, as críticas ao Nobel vão além de possíveis vieses individuais dos comitês, cujos processos de seleção são em grande parte sigilosos. Elas questionam um modelo de reconhecimento criado em um contexto histórico específico, que pode reproduzir desigualdades de gênero, raça e origem geográfica, além de privilegiar determinadas formas de produzir conhecimento.

Ao definir quais áreas e realizações merecem ser celebradas e quem deve receber o crédito por elas, o Nobel revela as hierarquias e as desigualdades que atravessam a produção científica internacional. Questionar essas limitações não significa diminuir a importância do prêmio, mas ampliar as possibilidades de um reconhecimento mais justo e representativo, refletindo a diversidade de pessoas e as contribuições que impulsionam a ciência e beneficiam a humanidade.

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Fonte: Folha de S. Paulo

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