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Polícia de SP mata uma pessoa a cada 12 horas sob Tarcísio – 29/10/2026 – Cotidiano

Um celular confundido com uma arma. Uma faca na mão de uma mulher cercada por três agentes. Um homem que, já caído, continua sob disparos. As três cenas ocorreram em diferentes pontos da capital paulista neste mês, mas terminaram da mesma forma: pessoas mortas em intervenções policiais.

As circunstâncias de cada episódio estão sob investigação, mas as mortes ocorrem em um estado onde, entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, durante a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), intervenções das polícias Civil e Militar registraram, em média, uma morte a cada 12 horas e 13 minutos.

A frequência é cerca de 70% maior que a registrada em 2022, último ano da gestão João Doria/Rodrigo Garcia, quando foram ampliadas medidas de redução da letalidade e o intervalo médio entre mortes era de 20 horas e 48 minutos. O levantamento da Folha considera registros de intervenções de policiais em serviço e de folga, conforme contabilizados pelo governo.

Para o professor e especialista em segurança pública da PUC Minas, Luís Flávio Sapori, esses números refletem uma mudança de orientação entre os governos. “A política de contenção da violência policial do governo Doria foi claramente abandonada no governo do Tarcísio”, afirma.

Segundo ele, as medidas anteriores buscavam limitar abusos sem prejudicar o enfrentamento à criminalidade. A gestão atual, segundo ele, retomou uma concepção de guerra contra o criminoso, com consequências deletérias.

Sapori afirma que essa abordagem tem apelo popular, mas não enfraquece as organizações criminosas. “Esse modelo retroalimenta o crime organizado no Brasil”, diz.

Uma referência internacional, com diferenças de abrangência, aparece nos relatórios oficiais da polícia da cidade de Nova York. O departamento registrou 21 pessoas mortas a tiros em 2023 e 2024 na categoria de disparo intencional em situação de conflito, o equivalente a uma morte a cada 34,8 dias.

Os números não permitem, porém, uma comparação direta: além das diferenças de população e período, os dados americanos abrangem uma cidade e uma categoria específica de mortes por arma de fogo, enquanto os paulistas se referem a um estado e a um recorte mais amplo de intervenções policiais.

Os três casos citados no começo acima ainda não fazem parte das estatísticas analisadas pela Folha, que vão de janeiro de 2023 a agosto de 2026.

Gustavo Munis de Santana, 20, morreu na madrugada de 10 de outubro, em Moema, zona sul. Segundo o registro policial, a equipe foi chamada após a informação de que uma pessoa transtornada ameaçava atirar contra si.

Os PMs disseram na delegacia que confundiram o celular do jovem com uma arma. Imagens conhecidas posteriormente dão lastro à versão dos PMs. Dos oito policiais que participaram da ação, quatro atiraram. Foram 45 disparos, e a perícia identificou 27 ferimentos decorrentes de disparos no corpo de Gustavo, inclusive na cabeça, no rosto e no tórax.

Familiares relataram que ele tomava medicamentos para depressão.

Na Vila Dionísia, zona norte, Antonio Nunes Batista, 40, morreu após uma abordagem em 3 de outubro. Um familiar afirmou que ele tinha esquizofrenia. Os policiais relataram no boletim de ocorrência que Batista segurava uma faca e um garfo de churrasco e havia ameaçado pedestres.

Os policiais usaram arma de eletrochoque antes dos disparos com arma de fogo.

Um vídeo gravado por testemunhas mostra policiais diante dele e disparos que continuam depois de sua queda no asfalto. Três agentes efetuaram 24 tiros. Batista foi socorrido, mas morreu.

Em 15 de outubro, Camila Pereira da Silva foi morta com um tiro no Parque São Domingos, na capital. Imagens de uma câmera de segurança mostram a mulher caminhando pela rua, aparentemente com uma faca em uma das mãos, enquanto três policiais a acompanham e pedem que solte o objeto.

Um dos PMs atira, e a morte é constatada no local. As imagens não mostram tentativa de uso de arma de choque ou de outro equipamento menos letal.

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública confirmou os números apresentados pela Folha e afirmou que a avaliação da área deve considerar, além da letalidade, os índices criminais, a produtividade e as circunstâncias das ocorrências. Não explicou, porém, o motivo do aumento.

Segundo a pasta, de janeiro a agosto de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, as prisões aumentaram 4,36%, os flagrantes lavrados cresceram 7,86% e os inquéritos instaurados, 12,83%.

A secretaria disse que a PM mantém protocolos e treinamentos que priorizam a verbalização, a redução da tensão e o emprego necessário e proporcional da força, com uso excepcional de armas de fogo.

Afirmou, ainda, que as mortes são investigadas pelas instituições competentes, com atuação das corregedorias e comunicação ao Ministério Público, e que eventuais crimes ou desvios estão sujeitos a responsabilização. A corporação também oferece atendimento psicológico e assistência social aos agentes.

Sobre as tasers, o governo diz que planeja comprar mais 6.000.

A redução da letalidade registrada em 2022 ocorreu após um conjunto de medidas intensificadas desde 2020, no governo João Doria. A política incluía câmeras nos uniformes, aquisição de armas menos letais, apoio psicológico e análise das intervenções com resultado morte. Em setembro de 2022, a PM registrou 15 mortes, o menor total para aquele mês desde 1994.

Uma das principais iniciativas foi a ampliação do programa Olho Vivo, em junho de 2021. As novas câmeras gravavam todo o turno de serviço, sem depender do acionamento pelo policial. Naquele mês, os 18 batalhões participantes, incluindo a Rota, não registraram mortes em confrontos.

Crítico do uso das câmeras corporais, Tarcísio foi eleito governador e, para a pasta da segurança, nomeou o oficial da PM de SP reformado Guilherme Derrite, que, conforme ele mesmo se regozijava, foi retirado da letal Rota por excesso de mortes em confronto atribuídas a ele.

Derrite comandou a secretaria de janeiro de 2023 ao início de dezembro de 2025. Nesse intervalo, a frequência anual de mortes passou de uma a cada 17h23min, em 2023, para uma a cada 10h48min, em 2024. No conjunto de 2025, o intervalo foi de 10h30min.

De janeiro a agosto de 2026, já sob o comando de Osvaldo Nico Gonçalves, a média foi de uma morte a cada 12h09min.

Para Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, o aumento da letalidade reflete a perda de prioridade de uma política de gestão do uso da força implantada entre 2020 e 2022, durante os governos João Doria e Rodrigo Garcia. “Em nome de enfrentar o crime organizado, o uso da força passou a ser bastante tolerado”, afirma, referindo-se ao uso excessivo da força na gestão Tarcísio.

Segundo ela, a política anterior reunia câmeras corporais, investimento em equipamentos menos letais, acompanhamento psicológico dos agentes e punição de casos de abuso.

“Me parece que a Polícia Militar de São Paulo ainda não conseguiu recuperar esse programa de gestão de uso da força”, diz. Para Ricardo, os casos recentes de intervenções envolvendo pessoas em surto psiquiátrico reforçam a necessidade de garantir a presença de equipamentos menos letais e supervisionar seu uso, embora sejam ocorrências de atendimento difícil.

Não foram identificados registros de novas licitações para a compra de armas de eletrochoque durante a gestão Derrite. A última licitação localizada foi iniciada em 2022, na administração anterior, e concluída em 2023.

Fonte: Folha de S. Paulo

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