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“Uma invenção só faz sentido quando oferece algo de valor às pessoas”, diz Wozniak

Antes de se tornar a empresa mais valiosa do mundo, a Apple foi a realização de um sonho de dois jovens obstinados pela tecnologia. Dois Steves, Jobs e Wozniak. Enquanto um queria oferecer produtos mais acessíveis às pessoas, o outro, com sua cabeça de engenheiro, só queria mesmo desenvolver um computador pessoal para jogar e se divertir.  

O jovem apaixonado por eletrônica só tinha um problema: os preços das peças. Na época, um equipamento desses poderia custar praticamente o valor de uma casa. Mas Steve Wozniak não estava disposto a desistir. Do alto dos seus 13 anos, disse ao pai que, se fosse necessário, moraria em um estacionamento para realizar seu sonho.

Décadas depois, aquele jovem tímido e curioso, que aprendeu sozinho a projetar computadores, tornou-se um dos personagens mais importantes da revolução tecnológica mundial.

Ao lado de Jobs, Wozniak foi o engenheiro responsável pelo desenvolvimento dos primeiros computadores da companhia, ajudando a transformar máquinas complexas, restritas a especialistas, em produtos que poderiam ser utilizados por pessoas comuns em suas casas.

Foi essa história, contada com humor e uma boa dose de nostalgia, que encerrou a programação de palestras do G4 Valley, realizado no São Paulo Expo, na capital paulista, neste sábado (31). Diante de milhares de empreendedores, Wozniak relembrou os primeiros passos da Apple, a amizade com Jobs e as decisões que transformaram uma ideia aparentemente improvável em um negócio revolucionário.

Mas sua mensagem foi além da tecnologia. Aos empresários que assistiam sua palestra, deixou uma reflexão que contraria a lógica quem mede o sucesso apenas pelo crescimento do faturamento ou pela valorização de uma empresa. Durante quase uma hora ele falou basicamente que inovar exige paixão pelo que se faz, curiosidade para experimentar e, principalmente, capacidade de entender o que as pessoas realmente precisam.

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Um computador para jogar

A história começou muito antes de Wozniak conhecer Steve Jobs. Ainda adolescente, na região da Baía de São Francisco, ele já imaginava um futuro em que cada pessoa poderia ter seu próprio computador.

Mas naquele período, os computadores eram equipamentos caros, enormes e difíceis de operar. Segundo Woz, como é chamado, não existiam livros ensinando como construir uma máquina pessoal, e o acesso à tecnologia era limitado. Mesmo assim ele começou a estudar por conta própria, aprendendo a arquitetura dos equipamentos e experimentando maneiras de simplificar seu funcionamento.

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O objetivo não era criar uma empresa, mas sim construir algo que lhe permitisse jogar em casa.

Uma das dificuldades era permitir que o usuário se comunicasse diretamente com a máquina. Os computadores tradicionais utilizavam sistemas pouco amigáveis, como cartões perfurados e painéis que intimidavam quem não dominava a tecnologia.

Wozniak percebeu que poderia mudar isso utilizando um teclado e uma televisão como interface. Também começou a experimentar maneiras de reduzir a quantidade de componentes necessários para realizar tarefas que antes exigiam equipamentos muito mais complexos.

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A chegada dos microprocessadores abriu novas possibilidades. Em vez de depender de uma conexão com grandes computadores, ele poderia reunir os recursos necessários em uma máquina menor.

Foi assim que começou a tomar forma o projeto que daria origem ao Apple I, desenvolvido por Wozniak e lançado em 1976. A inovação não estava apenas na capacidade de processamento, mas na ideia de tornar o computador mais simples e acessível. A mudança ajudaria a abrir caminho para a popularização da informática.

Jobs viu um negócio onde Woz via diversão

Quando mostrou seu projeto a Steve Jobs, Wozniak não imaginava que estava dando o primeiro passo para criar uma empresa. Os dois, que há anos compartilhavam interesse por eletrônica e músicas de Bob Dylan, formaram uma grande dupla. Segundo Wozniak, enquanto ele era extremamente tímido, tinha poucos amigos e preferia passar o tempo construindo equipamentos a participar de atividades sociais, Jobs tinha uma personalidade mais expansiva e uma ambição que ultrapassava os limites da engenharia.

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Aos mesmo tempo em que Wozniak só se preocupava em descobrir como fazer uma máquina funcionar, Jobs enxergava a possibilidade de transformar aquela invenção em um produto comercial. A proposta de criar uma empresa, no entanto, não entusiasmava Wozniak. Até porque ele já trabalhava na Hewlett-Packard (HP), onde realizava seu grande sonho de ser apenas engenheiro. Gostava tanto de desenvolver produtos que pretendia passar sua vida inteira assim, sem assumir responsabilidades administrativas.

“Eu só queria ser engenheiro. Mas Jobs insistiu”, contou. E, juntos, eles perceberam que, se nenhuma grande empresa tinha interesse em produzir aquele computador, por que não fazer isso por conta própria? Da combinação dos dois perfis nascia ali a Apple. De um lado, um engenheiro interessado em resolver problemas e construir máquinas e de outro, um empreendedor capaz de reconhecer o potencial comercial de uma invenção e convencer outras pessoas a apostar nela.

Os primeiros passos foram improvisados. Sem recursos financeiros, os dois começaram vendendo placas de computador e comprando componentes com prazos apertados de pagamento. Era preciso produzir, vender e receber antes que as contas vencessem. Porém, o negócio ainda estava longe de ter a estrutura de uma companhia tradicional, mesmo unindo elementos decisivos, como um produto inovador e a determinação de levá-lo ao mercado.

A revolução das cores

Durante a palestra , Wozniak contou como desenvolveu a capacidade de exibir imagens coloridas nos computadores. Por quatro dias, o engenheiro estudou o funcionamento das cores em uma televisão e começou a experimentar maneiras de transformar sinais eletrônicos em informações que pudessem ser processadas pela máquina. A ideia era simples na aparência, mas tecnicamente difícil: fazer com que os jogos e as imagens deixassem de ser limitados às representações monocromáticas.

O resultado ajudou a diferenciar o Apple II, lançado em 1977, que se destacou pela capacidade de exibir gráficos coloridos e se tornou um dos computadores mais importantes de sua geração.  Segundo Wozniak, a importância das cores era tão grande para a identidade da empresa que acabou indo parar no primeiro logotipo amplamente conhecido da Apple, com a maçã listrada com seis cores.

Mais do que um detalhe estético, ele mostrava uma característica que marcaria a trajetória da companhia para sempre, que era tornar a tecnologia atraente, intuitiva e agradável para quem a utilizava. Wozniak queria que os computadores fossem capazes de fazer mais coisas. Jobs queria que essas possibilidades estivessem ao alcance de pessoas que não entendiam de engenharia. Essa combinação ajudou a estabelecer os fundamentos de uma nova relação entre seres humanos e máquinas.

O investidor que tornou a Apple uma empresa

Se Wozniak tinha o talento para desenvolver computadores e Jobs a capacidade de enxergar oportunidades comerciais, faltava alguém que soubesse transformar aquilo tudo em uma organização profissional. Foi nesse momento que entrou em cena Mike Markkula, investidor anjo que Jobs conheceu e se tornou uma figura decisiva nos primeiros anos da Apple.

Durante a palestra, Wozniak fez questão de destacar a importância do empresário, que não apenas colocou dinheiro no negócio, mas ajudou os fundadores a compreender como administrar uma companhia de verdade. Markkula orientou desde a contratação de profissionais até a organização das atividades comerciais e a construção de uma estrutura capaz de sustentar o crescimento.

Para Wozniak, essa foi uma das lições mais importantes de sua trajetória. “Uma boa ideia e um produto inovador não são suficientes para construir uma empresa de sucesso. É preciso reconhecer as próprias limitações e trazer pessoas que dominem áreas diferentes, como administração, marketing e questões jurídicas”.

Ele próprio decidiu permanecer próximo da engenharia, enquanto outros profissionais assumiam responsabilidades pela gestão. E assim a Apple continuou desenvolvendo novos produtos, como o Apple III, o Lisa e, posteriormente, o Macintosh, lançado em 1984. Nessa evolução, a companhia avançou na utilização de interfaces gráficas e do mouse, aproximando ainda mais os computadores do público em geral.

Wozniak lembrou que nem todas as decisões foram simples ou baratas. A busca por equipamentos mais fáceis de utilizar exigia investimentos e, algumas vezes, criava conflitos entre o desejo de inovar e as limitações financeiras. Ainda assim, a empresa manteve a ambição de desenvolver produtos que mudassem a maneira como as pessoas utilizavam a tecnologia.

Inteligência artificial, o próximo passo

Quase cinco décadas depois da criação da Apple, Wozniak vê na inteligência artificial uma nova etapa dessa transformação tecnológica. Mas faz ressalvas ao entusiasmo com sistemas que prometem substituir o trabalho e o raciocínio humano.

Para ele, a IA pode acelerar tarefas, ampliar a produtividade e ajudar no desenvolvimento de produtos. Isso, porém, não significa que as máquinas já sejam capazes de compreender plenamente as necessidades e os sentimentos das pessoas. O engenheiro lembrou que os sistemas ainda cometem erros e produzem respostas incorretas, fenômeno conhecido como alucinação. Por isso, considera indispensável a supervisão humana, especialmente em atividades nas quais uma informação equivocada pode provocar consequências importantes.

Mais do que dominar ferramentas tecnológicas, o empreendedor precisa entender o comportamento de quem vai utilizar aquilo que está criando. Na sua avaliação, as grandes inovações não surgem apenas da capacidade de desenvolver tecnologias sofisticadas. Elas dependem de identificar necessidades reais e criar soluções que façam sentido para as pessoas. “Se quiser criar um produto novo, tem de pensar o que o ser humano quer”, afirmou.

Wozniak também demonstrou preocupação com os riscos de sistemas cada vez mais autônomos, capazes de executar tarefas e se reproduzir digitalmente sem controle adequado. Para ele, a evolução da IA ainda exige respostas sobre segurança, confiabilidade e os limites da autonomia das máquinas. “Por enquanto, a melhor forma de construção de um cérebro leva 9 meses”, brincou.

O que empreendedores precisam aprender

Apesar de ter participado da criação de uma das empresas mais importantes da história, Wozniak deixou claro que nunca teve como principal objetivo acumular riqueza. Seu interesse estava mais no reconhecimento por parte de outros engenheiros, além do  prazer de construir produtos e na possibilidade de trabalhar com pessoas de quem gostava.

Quando a Apple cresceu e se tornou uma grande companhia, ele percebeu que sua realização pessoal não dependia de ocupar cargos de comando ou participar diretamente de todas as decisões comerciais. Preferia continuar próximo da tecnologia, dos amigos e das atividades que lhe proporcionavam satisfação.

Essa visão também influencia sua maneira de avaliar equipes. Segundo Wozniak, os melhores grupos com os quais trabalhou não eram formados apenas por profissionais tecnicamente competentes, mas por pessoas que compartilhavam interesses, gostavam de estar juntas e se divertiam durante o processo de criação. A afinidade entre os integrantes, a confiança e a disposição para colaborar podem ser tão importantes quanto as habilidades individuais.

“A razão da vida é estar com quem a gente gosta e rir junto”, afirmou

Ele também destacou a importância da honestidade, da dedicação e da paixão pelo trabalho. Para Wozniak, quem desenvolve um produto precisa acreditar no que está fazendo e encontrar prazer no processo de construção. Ao lembrar que ele e Jobs não haviam concluído a faculdade quando começaram a Apple, brincou que provavelmente teriam dificuldades para conseguir emprego na companhia nos dias de hoje.

Ao projetar os próximos dez anos, Wozniak também chamou a atenção para uma mudança menos discutida da revolução digital: a perda gradual do controle dos consumidores sobre os produtos que utilizam.

Ele lembrou que, décadas atrás, quem comprava um equipamento ou programa passava a ser proprietário daquele bem. Com o avanço da internet, da computação em nuvem e dos serviços por assinatura, essa relação mudou. Hoje, muitos consumidores dependem de pagamentos recorrentes para continuar utilizando ferramentas digitais, enquanto as empresas fornecedoras podem alterar condições de acesso, funcionalidades e formas de armazenamento dos dados.

Para Wozniak, essa transformação levanta questões importantes sobre autonomia e propriedade no mundo digital. A preocupação mostra que, mesmo depois de ajudar a criar uma indústria baseada em inovação constante, o engenheiro continua olhando para a tecnologia a partir da perspectiva de quem a utiliza.

No fim, a mensagem deixada aos empreendedores do G4 Valley foi a mesma que orientou suas primeiras experiências com computadores. “Uma invenção só faz sentido quando oferece algo de valor às pessoas”.

Fonte: infomoney

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