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UNE tenta destravar sede inacabada na praia do Flamengo – 02/11/2026 – Educação

Às voltas com a comemoração de 90 anos, a serem celebradas em 2027, a UNE (União Nacional dos Estudantes) convive com o impasse sobre o futuro do terreno da história sede na Praia do Flamengo, zona sul do Rio de Janeiro.

O espaço abriga há quase dez anos um edifício incompleto, cuja destinação jamais foi definida. A principal entidade estudantil do país afirma ter interesse em retomar as obras e a Prefeitura do Rio analisa um pedido de licença para uso comercial do imóvel, feito pela própria UNE.

A construção está vazia, aparentemente abandonada. Nas três vezes em que a reportagem visitou o local, em setembro e em outubro, não havia ninguém.

O vereador Pedro Duarte (PSD) enviou ofício à prefeitura em abril de 2025 pedindo a desapropriação do imóvel por hasta pública, uma modalidade de leilão prevista no novo Plano Diretor da cidade que dá destinação a imóveis sem uso.

“Chega a ser inacreditável que um imóvel localizado em uma região nobre da cidade, em frente a um dos principais parques da cidade, com vista para o mar, e muito próximo ao metrô esteja no estado em que se encontra, chegando a ser identificado como Esqueleto da UNE”, diz Duarte no ofício.

O município disse, em nota, não considerar a desapropriação. Segundo a secretaria municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, há um pedido de licença em andamento, sob análise, para dar destinação comercial à estrutura já existente, cerca de cinco pavimentos já construídos.

O pedido de licença, segundo o tesoureiro da UNE, Matheus das Neves, foi feito pela entidade. A ideia é que a torre principal seja utilizada comercialmente, e o edifício dos fundos seja um centro de exposições.

“Já estamos em tratativas junto a prefeitura para aprovação de novo projeto e retomada das obras”, afirmou o tesoureiro.

O prédio original que ficava no local, demolido em 1981, foi um marco da repressão da ditadura militar. Foi metralhado pelo movimento anticomunista em 1962, incendiado na primeira madrugada do golpe de 1964, pichado e vandalizado durante o período.

Também foi ali, no terceiro andar do prédio, que surgiu e se desenvolveu o CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE, de 1961 a 1964. O movimento reuniu artistas mobilizados na produção de uma cultura nacional politicamente ativa, como os expoentes da bossa nova engajada, como Nara Leão e Carlos Lyra, o cineasta Leon Hirsman e o dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha.

O terreno foi doado à UNE em 1994 pelo presidente Itamar Franco, mas o espaço ficou abandonado por conta de imbróglios judiciais e se tornou estacionamento irregular até 2007, quando um movimento de estudantes invadiu o terreno, cobrando a posse definitiva na Justiça, o que ocorreu.

Em 2010 e 2011, os governos Lula (PT) e Dilma (PT) empenharam R$ 44 milhões [valores da época] para a UNE. Uma primeira parcela de R$ 30 milhões fora depositada em 2010; outros R$ 14 milhões no fim de 2011. A ideia era que o dinheiro custeasse o novo prédio.

O cálculo levou em consideração o valor do terreno à época, multiplicado por seis. O dinheiro representava a reparação à entidade pelos prejuízos causados na ditadura, incluindo o incêndio na sede.

O novo edifício teria 12 pavimentos, com museu, sala de cinema e teatro. A UNE ocuparia parte do prédio e alugaria salas para exploração comercial em outros andares.

Uma maquete virtual de como seria o prédio está no ar há 14 anos no canal do YouTube da UNE. A obra seria concluída antes da Olimpíada do Rio, em 2016, o que não ocorreu.


O prédio começou a ser erguido em 2014. A obra subiu cinco pavimentos até 2018, mas não houve mais evolução. Placas que indicavam que o terreno pertence à UNE e que havia uma obra em andamento no local foram retiradas. Hoje um tapume metálico cobre o térreo.

“A crise imobiliária e da construção civil no Brasil e no Rio, fruto da Operação Lava-Jato impôs dificuldades ao negócio, sendo insuficientes as indenizações para a conclusão do prédio”, afirma Matheus das Neves.

O repasse chegou a ser alvo de um pedido de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) pelo deputado Pastor Marco Feliciano (então PSC-SP), mas a instalação foi cancelada.

Localizado em pedaço valorizado da zona sul, o terreno pertencia à Sociedade Germânica até 1942, quando foi repassado à recém-fundada UNE durante a transição para a ilegalidade de entidades vinculadas aos países do eixo da Segunda Guerra Mundial.

A entidade ganhou corpo nos anos 1950 e durante o curto governo do presidente João Goulart. A UNE participou da campanha pela legalidade —de apoio a Jango—, e foi alvo de ataques.

“Em 1981 a UNE estava articulada, e a ditadura enfraquecida. O discurso era retomar o prédio que havia sido tomado. Mas surge um laudo de que o prédio está condenado, um laudo contestado, essa batalha vai para a Justiça, mas ele é demolido. A partir desse momento, a batalha passa a ser não mais o prédio, mas o terreno”, afirma Aline Portilho, produtora cultural com pesquisa de mestrado sobre o endereço.

Outro espaço que abrigou antiga sede da UNE, na rua do Catete, 243, deve ter um dos anexos demolidos. Em setembro um dos muros desabou.

O edifício principal funcionou como sede da UNE de 1976 até os anos 1990, o que inclui o movimento “Fora Collor”, período de atos pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992, em que a UNE participou.

O endereço da rua do Catete está sob administração da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Em nota, a universidade disse que obteve autorização para demolir da edificação que desabou. O conjunto não será totalmente derrubado. Não há atividades atualmente no local.

No espaço funcionou a antiga faculdade de direito do estado do Rio, uma das instituições que daria origem à UDF (Universidade do Distrito Federal), que se tornaria a Uerj.

A universidade estadual disse que iniciou o processo de licitação para contratar a empresa especializada na demolição, “considerando as particularidades da intervenção e a proximidade com imóveis vizinhos, que exigem cuidados técnicos específicos”, disse em nota.

Enquanto prevê uma série de ações para comemorar os 90 anos, o que inclui uma homenagem no desfile da escola de samba Império Serrano, no próximo carnaval, a UNE avalia ter colhido frutos da mobilização nacional pela reeleição de Lula no segundo turno.

“Em um momento em que a disputa política parecia cada vez mais dispersa ou somente concentrada nas redes sociais, os estudantes recolocaram a organização coletiva e a ocupação das ruas no centro da vida democrática. Então nós tivemos pela primeira vez muitos estudantes participando pela primeira vez de uma reunião de centro acadêmico, de assembleia. Isso revela uma disposição de participação”, afirma a presidente da UNE, Bianca Borges.

Fonte: Folha de S. Paulo

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