redacao@163noticias.com.br

(66) 99202-8497

Jerry Seinfeld é alfinete que estoura o balão do nosso ego – 02/11/2026 – João Pereira Coutinho

Se contar, ninguém acredita. O humorista Jerry Seinfeld viajou a Lisboa para um show de stand-up. Alguns dos humoristas portugueses que iam participar do mesmo festival desistiram em cima da hora. Seinfeld é um conhecido apoiador de Israel. Esses humoristas não toleram quem apoia Israel na luta contra o terrorismo do Hamas.

Estão no seu direito, claro. Mas existe algo de estranho, para não dizer cômico, em humoristas que reduzem Seinfeld às suas opiniões políticas. Guardadas as devidas proporções, é como imaginar um jogador de futebol profissional que reduz Maradona à sua paixão por Fidel Castro.

Infelizmente, não tenho esses escrúpulos. Nunca tive: as inclinações ideológicas de um artista só me incomodam se ele for um mau artista. Quando soube que Seinfeld viria a Lisboa, comprei o ingresso e marchei, como um soldadinho obediente e grato, para ver e ouvir o maior humorista da minha geração.

Imaginei que, fora e dentro do local do show, os protestos fossem pesados. Nada disso. Milhares de pessoas, nitidamente da Geração X, com opiniões políticas diversas, estavam ali pela deliciosa misantropia de Seinfeld.

Eu disse misantropia? É preciso explicar, de preferência com o patrono da espécie. “Odeio e detesto esse animal chamado homem, embora ame de todo o coração o John, o Peter, o Thomas e assim por diante”, escreveu Jonathan Swift ao amigo Alexander Pope em 1725.

É a melhor definição de misantropia que conheço. É a minha variante também. Amar a humanidade? O que é isso de humanidade? Seinfeld também não sofre do mal de amar a humanidade. Entrou no palco —estatura baixa, cabeça grande, a televisão engana— e abriu as hostilidades. Um humorista sonha em se apresentar em Las Vegas, Los Angeles, Nova York, disse ele. Mas Lisboa?

A audiência riu do insulto. E riu ainda mais do catálogo de misérias que o animal humano finge serem benesses. Por animal humano, leia-se: eu mesmo. Com a idade, confesso que tirar férias em lugares turísticos se converteu numa espécie de inferno que não vale o esforço. Prefiro ficar em casa e seguir a velha regra: nunca se tem livros demais, vinho demais ou munição demais.

Seinfeld discorda. Não é porque odiamos algo que devemos deixar de fazê-lo. Há um prazer no ódio que não deve ser desprezado, uma verdade atemporal que o pessoal do “pense positivo” não consegue alcançar. Mas há limites. O golfe, por exemplo. Como regra de vida, diz ele, nunca devemos praticar um esporte em que é preciso um carrinho ridículo para chegarmos até a bola.

Já os esportes radicais, como ir ver os destroços do Titanic no fundo do mar e, como aconteceu em 2023, morrer na viagem, só são vantajosos para o próprio Titanic. “Mais de cem anos depois, o navio continua fazendo vítimas”, observa Jerry, com uma impressionante falta de tato. O público amou.

Nem tudo é ruim, porém. O café e o casamento se salvam da lente impiedosa de Seinfeld. O café é o portal que nos permite passar do mundo da cama para o mundo da vida. Começamos o dia com o mesmo pensamento —”Ah, não, eu de novo!”— e o líquido escuro é o amigo fiel que nos convence, gole a gole, de que talvez valha a pena voltar a ser quem somos.

O casamento também é um portal, acrescenta Seinfeld, mas aqui as regras são diferentes entre os sexos. Antes do casamento, as mulheres fingem ser o que não são durante dois ou quatro anos de namoro. Depois do casamento, são os homens que fingem ser o que não são durante duas ou quatro décadas de prisão.

Deve ser por isso, conclui Seinfeld, que a família da noiva fica tão feliz no dia do casamento. Eles sabem, eles conhecem, eles estão informados. O noivo é que não. O humor de Seinfeld é infantil no verdadeiro sentido da palavra —é como imaginar uma criança grande que gosta de desmontar os objetos para ver as entranhas de que são feitos.

Depois, expostas com rigor as peças minúsculas que compunham a máquina, vêm a perplexidade e o absurdo. Por que somos tão ridículos, cansativos e ilógicos? Seinfeld é, no fundo, o alfinete que estoura o balão do nosso ego. Humanidade? Quem se importa com a humanidade?

Tudo o que importa são George, Kramer e Elaine, os amigos que Seinfeld imortalizou na série de TV homônima e que só confirmam a intuição de Jonathan Swift —a humanidade é intolerável no plural, mas irresistível no singular. É esse o paradoxo que os humoristas ausentes nunca entenderão. Quem ama a humanidade sempre expulsa alguém dela. O misantropo, pelo contrário, não discrimina. Não é por sermos imperfeitos que devemos cancelar o espetáculo.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Folha de S. Paulo

163 NOTICIAS