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Trump perde apoio com inflação e custo de vida nos EUA – 04/11/2026 – Economia

“Instruirei todos os membros do meu gabinete a mobilizar os vastos poderes à sua disposição para combater a inflação recorde e reduzir rapidamente os custos e os preços”, discursou o presidente americano, Donald Trump, em sua posse em janeiro de 2025.

Quase dois anos depois, marcados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao mundo e pela guerra no Irã, ambos inflacionários, a quebra dessa promessa foi um dos principais motivos para a derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato, com domínio dos democratas na Câmara e no Senado.

A alta de preços, que incomoda desde o governo anterior, de Joe Biden, voltou a acelerar como consequência da política externa de Trump e do boom da inteligência artificial, que estimulou a construção de data centers e elevou os custos da energia. Nesse ambiente, os juros seguiram elevados, dificultando o financiamento imobiliário e o consumo dos americanos.

A percepção de perda de poder de compra se espalhou entre os eleitores, como mostra pesquisa da Associated Press citada pelo jornal The Washington Post: 39% dos americanos afirmam que a economia é a questão mais importante enfrentada pelo país, e quase 90% apontam o custo de vida como fator importante em seu voto.

O levantamento mostra ainda que três quartos dos entrevistados descrevem a economia como ruim ou muito ruim, e quase 80% dizem que a inflação causou dificuldades financeiras para suas famílias no último ano.

“A inflação em si incomoda, mas a alta do custo de vida, que é a consequência da alta de preços ao longo de vários anos, incomoda ainda mais”, aponta Tomás Urani, estrategista-chefe de mercados do departamento econômico do Santander. “Isso acontece nos EUA e também em outros países.”

O pessimismo também aparece nas pesquisas de confiança. Levantamento da Universidade de Michigan indica que os americanos estão hoje menos confiantes na economia do que durante a pandemia de covid-19, em 2020, ou a crise financeira de 2008.

“O tema do custo de vida, que envolve a inflação mas também os juros do setor imobiliário, por exemplo, ajudaram a complicar a vida do americano. E houve uma promessa do Trump de melhora, mas o que ele fez nos últimos dois anos foi só piorar o poder de compra”, diz Andressa Durão, economista do ASA.

Na avaliação da economista, o tarifaço encareceu os bens consumidos pelos americanos, e desde o ano passado já vinha reduzindo a popularidade de Trump. A guerra no Irã neste ano, que elevou os preços dos combustíveis, foi a gota d´água, aponta ela.

“Mesmo antes da guerra do Irã, já havia a percepção do mercado de que a Câmara se tornaria democrata. A dúvida era sobre o Senado, mas a guerra, que é desaprovada por mais da metade dos americanos, mudou isso”, afirma Durão.

Ela aponta também a insatisfação crescente com a explosão da construção de data centers no país, que tem como consequência a alta no preço da energia nas regiões próximas a eles. “Isso coincidiu com as eleições de meio de mandato”, diz.

O último CPI, índice de preços ao consumidor dos EUA, mostrou que a inflação acelerou em setembro, puxada pela gasolina. O indicador subiu 0,6% no mês e 3,7% em 12 meses.

“A inflação nos EUA não é um tema novo. Há uns cinco anos que a alta de preços vem acima da meta, e a promessa de Trump havia sido de endereçar isso o mais rápido possível. Mas a inflação continua elevada, e quando isso persiste por muito tempo, há corrosão do poder de compra”, afirma o economista Felipe Mecchi, do C6 Bank.

Ele lembra que a inflação vem sendo pressionada principalmente por combustíveis. “E esse é um efeito transversal, que não se limita só ao impacto para abastecer o carro. Tem impacto nos custos dos fretes, e por isso acaba sendo um problema bem maior”, diz Mecchi.

É a mesma avaliação de Bernardo Dutra, economista do Itaú Unibanco, que diz que a inflação é o tópico com maior nível de rejeição quando se olham os dados de aprovação segmentada por temas do presidente. “O aumento do preço da gasolina e energia como resultado da guerra, sem dúvida, tem um impacto relevante”, afirma.

Apesar disso, o desempenho da atividade é relativamente sólido, como aponta o economista do C6. O PIB (Produto Interno Bruto) americano avança a uma taxa anual pouco superior a 2% sob Trump, e o mercado de trabalho segue robusto.

“Ainda vemos um mercado de trabalho americano saudável, uma taxa de desemprego baixa, que não é fonte de inflação”, diz Mecchi. “Mas o custo de vida pressiona.”

Nesse cenário, o Federal Reserve, o banco central americano, tem pouca margem de manobra. Na semana passada, a instituição manteve os juros na faixa entre 3,75% e 4% ao ano e condicionou as próximas decisões à evolução dos dados econômicos.

Os investidores esperam que novas altas podem ser necessárias a partir de dezembro, com aumentos também em 2027 para conter os preços, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group.

Fonte: Folha de S. Paulo

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