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Jazzófilos ranhetas – 07/11/2026 – Ruy Castro

Se você gosta de jazz e admira alguns de seus cardeais —Louis Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane—, é provável que os veja como unanimidades que ninguém ousa ou já ousou contestar. Mas, se mergulhar na história do gênero, ficará surpreso ao ver que eles (e muitos outros) não só tiveram discos reduzidos a zero como viveram fases consideradas pelos ranhetas como nefastas para a evolução do jazz. Todo jazzófilo gosta mais de um estilo do que de outro e, se isto confirma a riqueza da música, também costuma ser visto como preconceito.

Alguns dos maiores entendidos brasileiros do século 20, como Lucio Rangel, Sergio Porto, Fernando Sabino e Vinicius de Moraes —sim, Vinicius!—, achavam que só valia o jazz tradicional, de Louis Armstrong e de New Orleans, e que a música de Charlie Parker e do be-bop não era nem música, muito menos jazz. Era outra coisa, que eles detestavam.

Ao mesmo tempo, havia tradicionalistas tão xiitas que, para eles, o grande Louis era só o de 1925-27, com o Hot Five e o Hot Seven, e que, de 1930 em diante, tornara-se um artista comercial, que fazia mais caretas do que tocava. Duke Ellington, por sua vez, era atacado por eles porque sua orquestra dependia mais de arranjos do que de improvisos, e o jazz seria basicamente improviso.

Outro grande inimigo do jazz moderno foi o poeta e crítico inglês Philip Larkin. Suas maiores aversões eram a Miles e Coltrane, contra quem disparava as imagens mais hilárias e fulminantes. Sobre Miles: “Sua música é ideal para acompanhar enterros”, “Um monumento à chatice rebarbativa” e “Menos interessante do que uma receita de geleia de ruibarbo lida de cabeça para baixo”. Sobre Coltrane: “Será possível escutar Coltrane por prazer, com aquela tonalidade catarral, serrando para frente e para trás durante dez minutos sobre dois acordes, com guinchos e rangidos como giz no quadro-negro?”.

Pobres Louis, Duke, Bird, Miles e Coltrane. Se nem eles conseguiram agradar a todo mundo, imagine Jesus Cristo.


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Fonte: Folha de S. Paulo

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