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Caminhada reúne seguidores de Luiz Gama no centro de SP – 02/09/2026 – Cotidiano

“Por volta das três horas e meia do dia 24 entrou-me pela casa um amigo:

– ‘Sabes?’ disse bruscamente, ‘o Luiz Gama morreu!

– O que está dizendo?!

– Morreu…

– … Luiz Gama?!

– Sério, tristemente sério, afirmou-me o amigo.”

Assim começa a crônica do escritor Raul Pompeia (1863-1895), publicada na Gazeta de Notícias, sobre o cortejo fúnebre em homenagem ao advogado e jornalista negro Luiz Gama, maior nome do abolicionismo brasileiro, morto provavelmente de complicações de uma diabetes em 24 de agosto de 1882.

Luiz Gama foi um homem que se libertou da escravidão e se tornou escrivão de polícia, jornalista, dono de jornal, poeta, abolicionista e advogado autodidata que, usando apenas os artifícios da lei, libertou pelo menos 500 pessoas da escravidão no século 19. Morreu seis anos antes da Lei Áurea e não viu o fim do regime no Brasil, causa pela qual lutou por décadas.

Seu cortejo fúnebre, que saiu do Brás, onde ele morava, e foi até o cemitério da Consolação, ficou marcado na memória e na imprensa de São Paulo, reunindo três mil pessoas —ou 10% da população da capital na época.

No domingo (30), ou seja, 144 anos depois, um grupo de 50 pessoas refez o trajeto do funeral, passando por pontos marcantes na trajetória de Gama e da cidade, como a praça da Sé, o Fórum João Mendes e, no final, seu o pequeno túmulo no cemitério da Consolação.

“A cidade estava triste”, narrou Pompeia, em sua crônica. “Inúmeras lojas tinham as portas fechadas, em manifestação de pesar; as bandeiras das sociedades musicais e beneficentes da capital pendiam a meio mastro. Apinhava-se povo nos lugares por onde devia passar o enterro. As janelas acotovelavam-se as famílias. Em alguns pontos viam-se pessoas chorando. Ia sepultar-se o amigo de todos.”

Para Abílio Ferreira, 66, coordenador da Sociedade Luiz Gama, associação dedicada à memória do abolicionista, a caminhada do último domingo serviu para se “ter uma ideia do peso e da comoção daquele momento”.

O cortejo em homenagem a Gama se tornou um evento anual em 2013, sempre na semana de agosto em que o abolicionista morreu. “Na crônica, Raul Pompeia narra que os figurões ricos de São Paulo queriam pagar carruagens para a população se dirigir ao cemitério, mas a família de Gama recusou e todo mundo foi a pé”, conta Ferreira.

Em frente ao Fórum João Mendes, atrás da catedral da Sé, o historiador Bruno Rodrigues de Lima, 37, explicou aos participantes a rivalidade entre o abolicionista e o juiz que dá nome ao tribunal.

“João Mendes foi um dos maiores inimigos do Luiz Gama. Odiava Luiz Gama. Só que não podia negar uma verdade comum à sociedade paulistana: que o Luiz Gama era sinônimo de excelência e o maior advogado dessa cidade, desse país, e, não é exagero dizer, o maior advogado do mundo”, disse.

Bruno Lima é doutor em História do Direito pela Universidade de Frankfurt, na Alemanha, e pesquisador do Instituto Max Planck. Ele estuda a vida e a obra de Gama há duas décadas e descobriu mais de 800 artigos do abolicionista em arquivos públicos de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

Nos últimos anos, Lima vem lançando as “Obras Completas” de Gama, 11 volumes que reúnem toda a produção escrita do advogado encontrada até hoje.

A caminhada deste domingo também marcou o lançamento do quinto volume da empreitada, o livro “África-Brasil” (ed. Hedra), lançado nesta semana, e que reúne uma centena de textos do advogado sobre sua relação com africanos livres e escravizados.

Um deles é um caderno encontrado por Lima em 2021 no meio de uma papelada no Apesp (Arquivo Público de São Paulo). Trata-se do “Livro dos Africanos Emancipados”, de 1864, um catálogo manuscrito com pequenos perfis de 124 africanos livres escritos por Gama quando ele trabalha como escrivão.

Nascido na Bahia, Luiz Gama foi vendido pelo próprio pai à escravidão. Sua infância em Salvador e a trama dessa venda foi revelada por Bruno Lima no livro “Pai contra mãe: As origens perdidas de Luiz Gama” (Ed. Hedra), lançado em agosto do ano passado.

O livro partiu da análise de documentos históricos encontrados por Lima e Felipe Peixoto Brito, um pesquisador baiano, autodidata como Gama, que vem encontrando documentos históricos sobre figuras importantes do período da escravidão em arquivos públicos da Bahia.

Trazido de Salvador em um navio negreiro, Gama depois foi escravizado por uma família paulistana até os 18 anos, quando reuniu provas de sua liberdade. Morou no centro —onde hoje é a região da Bolsa de Valores. Depois, foi viver no Brás —periferia de São Paulo na época— com sua esposa, Claudina Fortunata Sampaio. O casal teve um filho, Benedito Graco.

Gama fez sua carreira jurídica em São Paulo, tornando-se um dos advogados mais bem pagos e conhecidos do Brasil no final do século 19. Defendia pessoas negras e escravizadas de graça contra as famílias mais ricas do Estado. Denunciou torturas e violências contra a população negra na imprensa.

“A gente fez uma caminhada hoje, e nós falamos que essa é uma caminhada histórica. A gente passa por onde Gama passou, e nós sentimos a força heroica dele”, diz o ator e dramaturgo Max Lu, 50, em frente ao túmulo do cemitério da Consolação.

“Só que talvez tudo isso nos aproxime muito pouco daquilo que Raul Pompeia fala na crônica: ‘lá estavam pessoas pretas libertadas por Luiz Gama’. Quem estava carregando a alça daquele caixão tinha uma gratidão pela liberdade”, diz.

Gama foi sepultado em um pequeno jazigo próximo da entrada do cemitério. No domingo, os participantes da caminhada em sua homenagem fizeram um juramento como “seguidores das ideias de Luiz Gama”, que defendia um país “sem reis e escravos”.

O primeiro juramento às ideias de Gama aconteceu no dia de seu enterro, em 24 de agosto de 1882, diante do túmulo. Raul Pompeia narrou a cena. Segundo ele, um médico chamado Clímaco Barbosa pediu a palavra no funeral:

“O orador reforçou a voz, reforçou o gesto; e intimou a multidão a jurar sobre o cadáver, que não se deixaria morrer a ideia pela qual combatera aquele gigante. Um brado surdo, imponente, vasto, levantou-se no cemitério. As mãos estenderam-se abertas para o cadáver… A multidão jurou.”

Fonte: Folha de S. Paulo

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