Campanha de Flávio Bolsonaro usa ‘guerra espiritual’ – 25/10/2026 – Política

Na mesma sexta (23) em que Flávio Bolsonaro (PL) achincalhou Lula (PT) por ter “nove dedos” no debate da Globo, sua colega de partido Ana Campagnolo publicou uma foto que aludia à mão do presidente sem o mindinho, perdido num acidente de trabalho quando ele era um jovem torneiro mecânico.

A parlamentar mais bem votada para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, autodeclarada “conservadora, cristã e antifeminista”, inseriu na imagem as tarjas “ideologia de gênero”, “aborto”, “legalização das drogas” e “repressão à nossa fé”. Abaixo, a frase “cristão não vota em candidato indicado por gente que sempre defendeu isso!”.

Na legenda, ela diz que a cada quatro anos reaparecem os mesmos personagens com “a máscara da candura”, todos “muito ‘simpáticos’ e ‘empáticos’, como se não tivessem passado a maior parte de suas vidas públicas […] tratando nossos valores como sinônimo de atraso”.

A peça convocava pautas morais para defender que cristãos rejeitem candidatos associados à esquerda, numa estratégia clara: apresentar o voto como uma escolha de fidelidade religiosa.

É o tipo de conteúdo que saiu da berlinda nesta eleição presidencial para ser explorado lateralmente por aliados de Flávio Bolsonaro (PL), a exemplo do deputado eleito Lucas Pavanato (PL-SP), com sua oposição estridente a pautas LGBTQIA+, e a futura deputada estadual Eduarda Campopiano (PL-SP), que vai espessar o caldo antifeminista nos parlamentos estaduais.

O elemento moral existiu e não foi pequeno na campanha principal, como a promessa de Flávio de punir abusadores sexuais com castração química. Mas a pauta moral clássica, como os temas levantados por Ana Campagnolo, ficou em segundo plano.

O que ficou mais saliente foi o discurso da guerra espiritual, que transfere a disputa política para um confronto entre o bem e o mal, pintando o triunfo do adversário como ameaça existencial.

Levantamento de perfis digitais religiosos, feito em parceria pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque, deixa esse cenário mais claro. Nos dias que antecederam o segundo turno, houve forte mobilização para campanhas de “jejum e oração pelo Brasil”, incentivadas por influenciadores como Bella Falconi como arma para liberar o país “de uma ideologia demoníaca”.

A religiosidade pegou vias transversais a essa avenida eleitoral, com o candidato do PL fazendo o tour de praxe em igrejas e testando os limites da Justiça Eleitoral, que proíbe pedido de voto nos templos. Em agosto, em novo aceno a evangélicos, Flávio prometeu decretar “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” como um dos atos inaugurais de sua Presidência.

A bancada evangélica se expandirá, puxada por influenciadores como Pavanato e Nikolas Ferreira (PL-MG), campeões de voto no placar geral. Cresceram também ataques a religiões de matriz africana, retratadas como linha auxiliar da força das trevas nessa batalha espiritual evocada pelo bolsonarismo.

“A gente não ora o Pai-Nosso à toa”, Nikolas escreveu num post em que reproduz o vídeo de um ato pró-Lula, Tambores pela Democracia, promovido por umbandistas e candomblecistas na quinta (22). Na gravação, manifestantes cantam sobre “manter Bolsonaro amarrado num cipó”.

Ao contrário do que sugerem bolsonaristas, essa expressão vem da tradição da Jurema, religião afro-indígena com origem nordestina, e tem a ver com “invocar proteção espiritual e o afastamento de forças que considera ameaçadoras”, e não “desejar literalmente a morte de uma pessoa”, diz Carolina Rocha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e autora de “A Culpa é do Diabo: O que Li, Vivi e Senti nas Encruzilhadas do Racismo Religioso”.

A reta final da campanha foi marcada também por apoios de última hora de líderes evangélicos de quilate nacional que ainda não haviam respaldado a candidatura de Flávio. Os dois maiores ministérios da Assembleia de Deus, Belém e Madureira, explicitaram a preferência pelo senador.

O missionário R.R. Soares nunca escondeu sua simpatia por Jair Bolsonaro (PL), mas também não havia falado nada publicamente a favor do primogênito dele nesta eleição. Quebrou o silêncio na sexta, num post calibrado para não espinafrar Lula.

“Não que eu tenha algo contra o outro, mas ele já governou tanto tempo, tem que deixar a mocidade começar agora. Nós já estamos de partida para a eternidade”, disse o líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, pioneira no uso massivo do televangelismo.

Aos 78 anos, dois a menos que Lula, Soares não conseguiu eleger nenhum dos cinco filhos que lançou para cargos no Legislativo. Com a atenção agora voltada à disputa presidencial, incentivou o voto idoso e disse que escolheria Flávio porque ele “é novo, é da família do Bolsonaro, que a gente tem o maior respeito por ele”.

Flávio começou a campanha sob ressalvas dessa turma. Muitos dos pastores que agora abraçam sua candidatura duvidavam de sua capacidade de reproduzir o apelo eleitoral do pai e temiam que suspeitas de corrupção se tornassem um passivo político —como de fato ocorreu, ainda que com menos aderência do que o imaginado a princípio.

A preocupação se voltava sobretudo aos escândalos de ordem moral. São notícias como a de que Flávio teria participado de uma festa numa lancha acompanhado de lobistas e prostitutas em plena pandemia e recebido presentes de luxo, como um relógio Rolex avaliado em R$ 300 mil.

Líder do PL na Câmara e ex-presidente da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcante diz que, ainda que emergissem evidências concretas de qualquer malfeito, os irmãos de fé perdoariam o convertido Flávio. “O evangélico é a igreja que cura de todos os doentes espirituais. E até agora não existe nada de prova, só boataria. Ele nunca deixou de esconder que teve um período em que se distanciou da fé.”

Antes, portanto, de o senador se converter evangélico “de verdade”, como ele já colocou. O processo teria começado em 2022 e se consolidado com seu batismo na Comunidade das Nações, do bispo JB Carvalho, o mesmo que anos atrás defendeu derrubar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira nacional.

A santa católica virou alvo de desgaste para Flávio a dias do primeiro turno. Já sob suspeita de que privilegiaria sua religião num eventual governo seu, o candidato teve que reagir ao boato de que resgataria um projeto de lei para retirar de Aparecida o status de padroeira. Nunca disse nada nesse sentido.

Fonte: Folha de S. Paulo