Elaborando a ciência longamente – 25/03/2026 – Deirdre Nansen McCloskey

Acabei de escrever um longo livro sobre a agricultura inglesa na Idade Média. Na semana passada, ele foi enviado para a Cambridge University Press e talvez seja publicado. Rezem por mim.

Não será um best-seller. É uma monografia científica que tenta, em cerca de 500 páginas, explicar por que os camponeses dispersaram seus pequenos lotes de terra em 1300 e por que o sistema chegou ao fim por volta de 1800.

A explicação que defendo é a de um seguro para os pobres em um mundo terrível e empobrecido. Quando o seguro se tornou mais barato, nos tempos modernos, e os pobres um pouco menos pobres, o sistema terminou. O fim foi, em outras palavras, uma espécie de reforma agrária. Com essa expressão geralmente queremos dizer que o Estado intervém para tornar a propriedade da terra mais igualitária. Mas outro tipo de reforma agrária é o Estado intervir para tornar a agricultura mais eficiente, por exemplo, consolidando pequenos lotes dispersos em fazendas unificadas.

Podemos pensar no primeiro tipo como de esquerda e no segundo como de direita —um preocupado com a igualdade, o outro com a eficiência. Mas nenhuma dessas reformas funciona muito bem, porque são impostas de cima para baixo. Ambas partem do pressuposto de que o Estado socialista ou o Banco Mundial sabem o que é bom para você melhor do que você mesmo.

Uma das razões das 500 páginas é que eu precisava mostrar que os antigos campos chamados de “abertos” não eram irracionalmente ineficientes e que seu fim no segundo tipo de reforma agrária —o “cercamento” pelo Parlamento— não foi egoísta e injusto. Muitos historiadores, e boa parte do público que soube disso por Marx, pensam o contrário. Eles acreditam que os camponeses medievais eram comunistas primitivos e que, no movimento de cercamento, os agricultores foram expulsos da terra e levados para as fábricas.

Nenhuma das teorias habituais é verdadeira. No entanto, para levar a ciência a sério, eu precisava mostrar em detalhe por que essas teorias estão equivocadas. A verdadeira ciência não pode simplesmente afirmar E = mc² ou MV = PT e depois ir para casa almoçar. Sabemos na prática, ao longo de toda a sua história, que a ciência é persuasão humana. E aprendemos a ver as coisas dessa maneira com o historiador da ciência Thomas Kuhn (1922-1986) e a enxurrada de estudos científicos que ele inspirou.

Para dialogar de forma respeitosa e eficaz com outros historiadores, de modo a promover conhecimento histórico, precisei analisar em detalhe os argumentos alternativos e compará-los, assim como os meus próprios, com fatos medievais e modernos.

O lema medieval era “Audi alteram partem” —ouça o outro lado. É um bom conselho para a ciência, para a política, para o casamento. Mas significa que a conversa é mais longa que apenas atirar declarações raivosas um contra o outro. Até 500 páginas a mais.

A verdadeira ciência não é fácil, assim como o verdadeiro debate político ou o verdadeiro casamento não o são. Se fossem fáceis, já saberíamos tudo sobre história, galáxia e economia. O debate político seria educado e frutífero. Os casamentos seriam perfeitos.

Trabalhei pela primeira vez no assunto de 1970 a 1979, em artigos, e retornei para escrever o livro há quatro anos.

Está feito. “Laus Deo.”


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Folha de S. Paulo