A advogada Eny Raimundo Moreira trabalhava no escritório do consagrado jurista Sobral Pinto no Rio de Janeiro e, a partir de 1978, passou a presidir o Comitê Brasileiro pela Anistia, uma iniciativa de familiares de presos políticos.
Em meados do ano seguinte, a advogada mineira de 33 anos não tirava da cabeça uma hipótese que lhe soava como pesadelo: e se os militares queimarem todos os processos judiciais de 1964 em diante? E se sumirem com os documentos que comprovariam a ocorrência de assassinatos e torturas, além da omissão do Judiciário?
Eny tinha ouvido Sobral Pinto, meio século mais velho que ela, contar que os arquivos do Estado Novo tinham sido incinerados nas semanas finais da ditadura de Getúlio Vargas.
Uma portaria publicada naquela época permitia que advogados retirassem do Superior Tribunal Militar (STM), em Brasília, os processos em que seus clientes eram investigados, com a condição de que fossem devolvidos no dia seguinte.
Ciente de que era preciso iniciar a reprodução desses documentos o mais rápido possível, Eny convenceu o amigo Luiz Eduardo Greenhalgh, outro advogado atuante no combate à ditadura, a se juntar a ela nesta causa de preservação da memória.
Foram, ao final, mais de 1 milhão de páginas reproduzidas, a base para um livro lançado em 1985, “Brasil: Nunca Mais”, que revela uma série de abusos do regime autoritário com uma clareza e uma abrangência jamais vistas até então.
Esse movimento inicial de Eny, que morreu em 2022, é uma das histórias contadas pelo jornalista Camilo Vannuchi em “Nunca Mais – Os Bastidores da Maior Denúncia contra a Tortura Já Feita no Brasil”, que detalha a coragem e a persistência de um grupo de mais de 20 pessoas à frente do projeto sigiloso de quatro décadas atrás.
Em suma, um livro sobre um livro.
Ao longo de pouco mais de 200 páginas, o autor lembra os contatos dos dois advogados com dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, e o pastor presbiteriano Jaime Wright, líderes religiosos que correram riscos em nome da iniciativa.
Uma das tarefas de Wright era trazer o dinheiro para financiar a força-tarefa, uma missão conduzida por ele ao longo de cinco anos a partir de 1980.
A cada dois ou três meses, o pastor ia à sede do Conselho Mundial de Igrejas, na Suíça, que recolhia as doações para o projeto de Eny e companhia. Retornava ao Brasil com um maço de notas dentro de uma doleira, uma espécie de pochete presa sobre a cueca. Ao desembarcar no país, Wright ligava para os colegas e avisava: “Os chocolates chegaram”.
O novo livro também mostra a relevância do advogado Sigmaringa Seixas e do jornalista Paulo Vannuchi (pai do autor), que assumiu a coordenação da análise dos processos, atividade que deveria correr sob forte discrição.
A eles se uniram as sociólogas Leda Corazza e Vanya Sant’Anna e a historiadora Ana Maria Camargo, entre outros colaboradores, em uma sala escondida no último andar do instituto Sedes Sapientiae, o primeiro dos espaços ocupados em São Paulo.
“A cada dia que passava e a cada lote analisado, aumentava a certeza de que a tortura, o terrorismo de Estado e desaparecimento forçado eram práticas sistemáticas, que seguiam um padrão, que obedeciam a uma hierarquia e a uma cadeia de comando, e que eram um modus operandi estrutural, jamais conjuntural. E tudo isso constava em documentos oficiais, o que beirava o realismo fantástico”, escreve Camilo Vannuchi.
Em meados de 1984, a equipe havia concluído um relatório de quase 7.000 páginas a partir da avaliação de mais de 700 processos. Dom Paulo, porém, insistiu para que fizessem um livro de, no máximo, 300 páginas, um produto acessível ao público geral.
Nessa reta final, os jornalistas Ricardo Kotscho e Frei Betto foram convidados para preparar essa versão mais objetiva, conforme queria o arcebispo.
Lançado em julho de 1985, o livro ganhou destaque na imprensa. “O porão da guerra suja”, registrou a revista Senhor. “Brasil: Nunca Mais acusa 444 da prática de tortura”, noticiou a Folha. Ficou cerca de seis meses no topo da lista dos livros de não ficção mais vendidos e logo foi publicado em outros países.
Além disso, os documentos de “Brasil: Nunca Mais” contribuíram para os resultados das Comissões da Verdade nas décadas seguintes.
Anos depois de ver sua obsessão transformada em um best-seller, Eny comentou: “A história do país deixou de ser contada só por quem vence”.