O incinerador e o racismo ambiental – 28/03/2026 – Txai Suruí

Mais um empreendimento ameaça a vida de quem mora nas regiões de Perus, Jaraguá, Anhanguera, Pirituba e em toda a Zona Noroeste de São Paulo. Trata-se do projeto de instalação de uma unidade de incineração de lixo no antigo Aterro Bandeirantes, em Perus. A população, por meio do movimento “Incinerador de Lixo em Perus, não!”, tem alertado sobre os graves impactos que esse tipo de empreendimento trará para a vida dos moradores e para o meio ambiente, além das irregularidades no processo.

A prefeitura tenta vender a ideia de que a usina transformará parte dos resíduos em energia elétrica por meio da queima controlada do lixo, sem “danos ambientais”, mas sabemos que isso não é verdade. A falta de transparência e a ausência de consulta às comunidades diretamente afetadas, denunciadas pelos moradores, escancaram essa contradição. Embora os impactos atinjam principalmente a região, seus efeitos se estenderão por toda São Paulo, cidade já marcada pela má qualidade do ar.

Num momento em que os limites do planeta atingiram todos seus alertas, a prefeitura apresenta o projeto como uma “nova tecnologia” capaz de reduzir o volume de lixo em até 80% e gerar energia limpa, alinhada a práticas de países como Japão e Dinamarca. No entanto, os críticos apontam que a incineração contraria a hierarquia da gestão de resíduos, que prioriza a redução, a reutilização e a reciclagem.

A usina compete com materiais recicláveis, desestimulando a coleta seletiva e os catadores, uma população já invisibilizada. Em São Paulo, a reciclagem não chega a 3%. A população defende investir no plano municipal que prioriza compostagem e reciclagem em vez de incineradores. A própria Dinamarca, usada como exemplo, planeja desativar parte de seus incineradores para ampliar a reciclagem e reduzir emissões.

A saúde da população é um dos pontos mais críticos. Estudos mostram que a queima de resíduos libera poluentes tóxicos que ameaçam a saúde, principalmente de crianças e idosos. Subprodutos da queima de plásticos e materiais clorados estão ligados a diversos tipos de câncer, são bioacumulativos e causam danos neurológicos, além de agravarem doenças respiratórias. Metais pesados presentes na fumaça também afetam o desenvolvimento neurológico e aumentam o risco de Parkinson e Alzheimer.

Mesmo com filtros, o próprio EIA-Rima admite que poluentes como óxidos de nitrogênio continuarão sendo emitidos. Nossa saúde não tem preço e nenhum empreendimento vale nossas vidas.

O estudo de impacto ambiental aponta que a área afetada pelo projeto pode incluir o Refúgio de Vida Silvestre do Parque Anhanguera e a Terra Indígena Jaraguá, principalmente pela poluição do ar.

Nossa região segue sofrendo com o racismo ambiental. É evidente que esses empreendimentos são sempre pensados para nossos territórios, tratados como áreas de descarte. Se são tão benéficos, por que não construí-los perto das casas de seus idealizadores ou na Faria Lima? Somos contra projetos que atentam contra nossas vidas. Uma audiência pública está marcada para 31 de março, no CEU Emef Perus. É o momento de dizermos não a esse incinerador.


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Fonte: Folha de S. Paulo