No início da adolescência, Ozzy Osbourne e um amigo invadiram uma casa para roubar alguma coisa. Levaram dali um aparelho portátil de TV. Logo policiais estavam na casa da família Osbourne, na cidade britânica de Birmingham, para deter o ladrãozinho, às risadas. Motivo —Ozzy deixou caída na sala de estar da casa invadida sua carteirinha da escola.
O episódio simboliza muito o que foi a vida de John Michael Osbourne, que morreu nesta terça (22), aos 76 anos. Como sua versão juvenil, ele quis cultivar uma fama de mau, fazendo coisas erradas, mas acabava invariavelmente provocando risadas, o que fazia as pessoas gostarem cada vez mais dele.
No dia 5 deste mês, Ozzy fez seu concerto de despedida, “Back to the Beginning”, em sua cidade natal, Birmingham. Ele se apresentou ao lado dos parceiros de sua lendária banda, Black Sabbath, e outros grandes nomes do rock pesado.
Ozzy cantou sentado em um trono, impossibilitado de caminhar e exibindo evidentes efeitos de Parkinson. A causa de sua morte não foi revelada, mas não surpreendeu a ninguém, pois o cantor passou os últimos 30 anos com vários problemas de saúde, provocados por décadas de excessos de drogas e bebidas.
Na virada para os anos 1970, o Black Sabbath foi um dos grupos responsáveis pela formatação do que viria a ser o heavy metal, ao lado de Led Zeppelin e Deep Purple. Sobre músicas soturnas, com batida forte e lenta, as letras do Sabbath inseriram o satanismo no rock.
À frente de seus companheiros Tony Iommi, na guitarra, Geezer Butler, no baixo, e Bill Ward, na bateria, Ozzy foi o símbolo do Black Sabbath, com visual de cruzes e roupas pretas. Atuava como emissário de um repertório de canções pesadas e arrastadas falando de religião, guerras e insanidade. A trilogia de álbuns “Black Sabbath” e “Paranoid”, ambos de 1970, e “Master of Reality”, no ano seguinte, influenciou gerações de bandas.
Apesar do sucesso mundial, a convivência na banda era difícil, e Ozzy foi demitido em 1979. Enquanto seus ex-colegas tocaram a carreira com alternância de vocalistas substitutos, Ozzy teve uma carreira solo de início fulminante. Levou para sua banda de apoio o exímio e jovem guitarrista Randy Rhoads, que ajudou Ozzy a montar um novo estilo nos álbuns “Blizzard Of Ozz” (1980) e “Diary of a Madman” (1981).
Com a morte precoce de Rhoads, aos 25 anos, num acidente com um pequeno avião em 1982, Ozzy atravessou as décadas seguintes lançando álbuns de metal que, embora às vezes muito bons, deixaram de ser influentes na cena roqueiro. Mas o sucesso seguiu forte, até com baladas mais comerciais como “No More Tears” e “Mama I’m Coming Home”.
A fama de maluco nunca o abandonou. Um exemplo é o lendário episódio em que ele teria arrancado a cabeça de um morcego com os dentes. Na mais convincente de várias versões dessa história, um morcego morto teria sido arremessado ao palco e Ozzy o teria mordido, pensando se tratar de um bicho de pelúcia.
Farras destruidoras em hotéis e entrevistas para a imprensa nas quais ele não falava coisa com coisa iam sedimentando o perfil insano do cantor. Essa fama aumentou ainda mais quando, em 2002, a MTV o contratou para produzir o reality show “The Osbournes”, que mostrava seu cotidiano com a esposa Sharon e os filhos adolescentes Jack e Kelly.
Realmente muito enlouquecido no dia a dia, ele forçava a barra nas gravações, numa versão ainda mais atrapalhada dos abobalhados personagens de Jerry Lewis. Era comum ver Ozzy brigando e xingando seus eletrodomésticos ao tentar fazê-los funcionar. Durante suas temporadas, às vezes o programa deixava de lado o humor escrachado e mostrava os problemas de alcoolismo de Sharon e as insatisfações adolescentes da prole do casal.
A produção de discos era bissexta e as turnês começaram a rarear, mas, quando ele saía para a estrada, os relatos de festas e barbáries continuavam fartos. Numa entrevista para este repórter, em Porto Alegre, em 2013, Ozzy disse que não conseguia mais improvisar nada nos shows. Cantava sempre as mesmas canções, numa ordem rígida, porque, se mudasse alguma coisa no que estava previsto, corria o risco de esquecer todo o resto que tinha ensaiado para o show.
Neste século, Ozzy chegou a se reunir algumas vezes com os integrantes originais do Black Sabbath, em turnês e shows esporádicos. Em 4 de fevereiro de 2017, em Birmingham, o Sabbath fez seu show de despedida. Ozzy já demonstrava dificuldades para fazer sua performance de príncipe das trevas. Mas foi no início deste mês, no show em seu tributo na mesma cidade, que seus problemas médicos comoveram o público.
Mas ele conseguiu cantar algumas músicas dos discos do Sabbath e da carreira solo, e parecia feliz com o carinho dos grandes nomes que apareceram para tocar ali. Com curadoria de Tom Morello, do Rage Against The Machine, o que se viu foi um pequeno festival, com Metallica, Guns N’ Roses, Slayer, Pantera, Tool, Alice in Chains, Anthrax e Mastodon, entre outros.
Ozzy veio ao Brasil cinco vezes. Em 1985, no primeiro Rock in Rio, o Black Sabbath chegou a ser anunciado como uma das atrações, mas foi substituído por Ozzy e a banda de sua carreira solo. Em 1995, ele foi destaque no festival Monsters of Rock, com shows em São Paulo e no Rio. Em 2011, fez sua maior passagem pelo país com cinco shows que faziam parte da turnê solo “Scream”.
Naquele ano, o show em Porto Alegre marcou mais uma trapalhada para o currículo de Ozzy. Durante a apresentação no Gigantinho, ginásio que pertence ao clube de futebol Internacional, Ozzy abriu no palco uma bandeira do Grêmio, o outro time da cidade que mantém uma das maiores rivalidades do futebol mundial com o Inter. Na plateia, torcedores do Internacional vaiaram, e torcedores do Grêmio riram.
Dois anos depois, em 2013, o Black Sabbath finalmente veio ao Brasil para quatro shows da turnê “Reunion”, que resgatou a formação original da banda. Eles se apresentaram em Porto Alegre, São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Ozzy voltaria mais uma vez em 2018, naquela que seria sua última grande turnê solo, “No More Tours II”, para quatro shows.
Diante do público paulistano, ele disse que estava numa das cidades que mais gostava em todo o mundo, embora naquele exato momento não recordasse o nome dela. Ozzy sendo Ozzy.
Fonte: Folha de S. Paulo