Parece uma banana gigante, mas seu fruto é intragável: a “planta milagrosa” que passa anos debaixo da terra e pode salvar milhões da fome
Os apelidos dados às culturas agrícolas podem ser bastante elogiosos. O algodão, por exemplo, desfruta da reputação de “Ouro Branco” desde o século XIX, enquanto o trigo reina em muitas regiões como o “Rei dos Cereais”.
Mas poucos se comparam ao nível de elogios dirigidos a “árvore contra a fome“, “banana turbinada” e “cultura milagrosa“. No entanto, se você mora fora da Etiópia, é bem provável que nunca tenha ouvido falar do nome popular da planta: ensete.
Apesar de ser um alimento básico para mais de 20 milhões de pessoas em toda África Oriental, em termos de renome global, a planta é insignificante em comparação com as “três grandes” culturas que fornecem mais da metade das calorias do mundo: arroz, trigo e milho.
Como é cultivado o ensete?
Embora o ensete selvagem seja nativo de diversos países da África, desde o norte do Sudão até Moçambique, na costa sudeste do continente, a planta é cultivada quase que exclusivamente na Etiópia.
A área de cultivo é ainda mais restrita, limitada às regiões montanhosas do sudoeste do país. Lá, em altitudes entre 1.500 e 3 mil metros acima do nível do mar, os agricultores cuidam de fileiras do que poderia facilmente ser confundido com árvores, com folhas verdes de até 5 metros de comprimento brotando de uma espinha central.
Assim como a bananeira, o ensete não é uma árvore, mas sim uma erva gigante, desprovida de madeira. Seu “tronco” é, na verdade, um pseudocaule formado por hastes foliares sobrepostas e compactadas, e é essa estrutura que, juntamente com o cormo — uma raiz subterrânea carnosa que lembra um tubérculo gigante — é pulverizada, combinada com levedura e fermentada em grandes fossas subterrâneas.
Entre três meses e dois anos depois, a mistura resultante é usada para criar um alimento básico etíope semelhante a pão, conhecido como “kocho”. Um subproduto do processo de pulverização é a “bulla”, um líquido extraído da polpa rica em amido que pode ser concentrado em um pó branco e, em seguida, reidratado para fazer bolinhos e mingau.
Quais são os benefícios do ensete?
O que você não encontrará à venda, no entanto, são os frutos amarelos ou alaranjados do ensete. Embora o tamanho imponente da planta e a semelhança com a banana lhe tenham rendido o apelido de “esteroides”, seus frutos — recheados mais por sementes pretas e duras do que por polpa saborosa — são intragáveis, razão pela qual também é conhecida como “banana falsa”.
No entanto, o ensete não deixa de ter benefícios reais. Com alto rendimento e tolerância à seca e a doenças, apenas 60 plantas podem sustentar uma família de cinco pessoas por um ano. Além disso, também é capaz de viver por mais de dois anos sem a necessidade de replantio, enquanto os ciclos de vida da maioria das principais culturas alimentares e de grãos, incluindo as três principais mencionadas anteriormente, são completados em uma única estação de crescimento.
Segundo um estudo co-escrito pelo biólogo James Borrell, as áreas de cultivo atuais poderiam ser expandidas 12 vezes para alimentar até 111,5 milhões de pessoas a mais na África subsaariana, uma região onde a insegurança alimentar e nutricional está aumentando, apesar do crescimento da produção agrícola global.
Além disso, é viável que seja colhido em muitos outros países ao redor do mundo capazes de atender à ampla gama de climas tolerados pelo ensete. Borrell e os colegas comprovaram isso em abril de 2023, quando o ensete floresceu pela primeira vez dentro da Estufa Temperada de Kew Gardens, uma estrutura de vidro de 4.800 metros quadrado dedicada à flora de regiões temperadas.
Por que essa planta só é cultivada na Etiópia?
Borell acredita que barreiras culturais e históricas conspiraram para bloquear a saída do ensete da segunda nação mais populosa da África.
Para começar, a Etiópia regula rigorosamente a transferência internacional de material vegetal numa tentativa de se proteger contra a biopirataria. Uma disputa judicial em 2019 sobre patentes holandesas do teff, um grão nativo do país africano, irritou cidadãos e autoridades, que viram o caso como uma batalha pela custódia de um patrimônio nacional.
Outros países que desejassem cultivar ensete poderiam importá-lo do leste e sul da África, mas essas variedades selvagens seriam “completamente inúteis” para alimentação, em comparação com a cultura domesticada da Etiópia, de acordo com Borrell
Embora os Jardins Botânicos Reais de Kew (local onde Borell trabalha) tenham recebido permissão para importar duas plantas de ensete em 2019, sob a condição de que todo o material fosse destruído após a conclusão do trabalho, os jardins se beneficiaram de uma relação de 40 anos com pesquisadores etíopes. Estender esse mesmo nível de confiança a outros pode levar tempo.
“A Etiópia possui uma grande diversidade vegetal, e por isso eles a protegem muito”, explicou Borrell.
A CNN entrou em contato com o Instituto Etíope de Biodiversidade para obter um comentário.
Outro obstáculo é que a colheita do ensete é extremamente trabalhosa, realizada principalmente por agricultores, afirmou Borrell. Soluções mecanizadas estão sendo desenvolvidas em diversas universidades etíopes, mas ainda não foram implementadas em larga escala.
O cultivo também envolve uma metodologia elaborada, desenvolvida ao longo de séculos pelas comunidades locais, e transformar o ensete em alimento requer conhecimento especializado. O sabor da planta também é algo que se adquire com o tempo.
A promoção pública de culturas menos conhecidas, como o ensete, incentiva os agricultores a não se concentrarem exclusivamente nas principais culturas comerciais, disse Borrell. Em nível local, Kew desenvolveu projetos que incentivam os agricultores etíopes a manter a diversidade de culturas, compensando-os pelo cultivo de variedades de ensete ameaçadas de extinção.
“Antes do nosso trabalho, as pessoas não queriam cultivar ensete… Isso é uma perda para o mundo, não apenas para a Etiópia”, disse Borrell.
“Se você disser: ‘Ei, estamos interessados em ensete, achamos incrível, queremos tentar ajudar vocês a cultivar melhor em menos terra e ter uma renda melhor’, você está falando a língua das pessoas”, acrescentou.
Fonte: CNN