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‘Senti o gosto da pólvora na boca’, diz PM que levou tiro de fuzil em fazenda de RO

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O tiroteio que aconteceu em uma fazenda de Mutum-Paraná, distrito de Porto Velho, onde dois policiais foram mortos em outubro de 2020, deixou um sobrevivente. O tenente Fredson Ferraz foi atingido por uma bala de fuzil no abdômen durante o confronto, teve que passar por três cirurgias e precisou retirar mais de cinco metros de intestino.

Ao G1, o policial contou que, após os procedimentos cirúrgicos, teve que usar três bolsas de colostomia e suplementação de uma sonda adaptada.

No dia do tiroteio, o tenente Ferraz fazia parte de uma das equipes da PM que se deslocou até a fazenda para resgatar o corpo do tenente da reserva José Figueiredo. Na ocasião, eles foram emboscados e recebidos a tiros na propriedade. Ferraz foi atingido assim que chegou no local, segundo ele, por um bala de fuzil.

“Quando ouvi o barulho de tiro eu já senti o gosto da pólvora na boca. Ali entendi que fui atingido”.

Com o ferimento na região do abdômen, Ferraz conta que buscou abrigo para revidar os ataques.

“Fiquei atrás de uma árvore. Me lembro de muitos tiros, tanto que eu não conseguia colocar a cabeça para fora da árvore, pois não tinha condições de ver. Eram tiros vindo de muitos locais. Até a hora em que consegui colocar o cano do fuzil para o lado de fora e efetuei disparos também, mas eles se prepararam bem. Eles conheciam a área deles. Emboscaram a gente em uma situação em favorável para eles”.

Ferraz lembra que o tiroteio durou cerca de 10 minutos, sem cessar. Ele conta que, no momento em que percebeu que podia sair e procurar socorro médico, recebeu ajuda de outro colega de equipe.

“Fiz três disparos de fuzil para ver se eles iam responder, como não teve a resposta, peguei no pescoço do parceiro, passei o armamento para os outros que ficaram e saímos de lá”.

Até chegar na viatura da polícia, Ferraz diz que não sabia o quão grave era o ferimento. Ele lembra que ficou acordado por cerca de 40 minutos, mas por conta da dor, chegou a desmaiar.

“Dentro da viatura tirei o colete. Vi que tinha furado as duas placas do colete. Deduzi que a bala era de fuzil. Naquela hora eu estava ruim. Não vi sair sangue. O estrago era interno. A gente se deslocou para Mutum-Paraná, que é onde tem a UPA. No caminho, em cada trepidada que o carro dava, eu sentia uma dor insuportável. Em Mutum-Paraná eu apaguei”, diz.

No hospital

Os primeiros atendimentos médicos que o tenente recebeu aconteceram em Mutum-Paraná. Depois, ele foi encaminhando para o Hospital João Paulo II, em Porto Velho. Uma equipe médica cirúrgica já o aguardava. Ferraz passou por três grandes cirurgias de laparatomia – com a abertura da cavidade abdominal – em uma semana.

“Cheguei no centro cirúrgico sem sinais vitais, conforme está no prontuário médico de 78 páginas. Fiz três cirurgias em uma semana. Uma delas deu infecção generalizada. Os médicos desenganaram. A primeira cirurgia foi para tirar pus, a terceira aconteceu porque tinha restos de fezes no meu organismo”.

Depois das cirurgias, Ferraz ficou em coma induzido por 17 dias. Na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), já no Hospital de Base da capital, ele ficou 20 dias. Foi quando soube da morte do policial Rodrigues.

Ferraz lembra a temporada na UTI como “difícil”, até mesmo pela adaptação da nova realidade.

“O complicado disso tudo é que o cara tem que ter cabeça e confiar em Deus, pois é Ele que ajuda, porque eu estava numa situação de saúde perfeita e passei a me ver sem poder andar, comer, beber e tomar banho sozinho, usando fralda, parecendo um bebezão. Tive que partir do zero de novo”.

“Tive um derrame pleural, o médico queria colocar um dreno, mas me recusei, perguntei o que poderia fazer para não ser mais furado, ele disse que eu devia fazer fisioterapia respiratória, foi quando peguei minha flauta e passei a treinar”.

De volta para casa

Fora de casa há mais de 60 dias, Ferraz diz que no momento em que pôde sair do hospital, o sentimento foi de gratidão pela segunda chance de viver.

“Cheguei em casa comecei a caminhar, peguei a bicicleta e fui pedalar, foi quando percebi que não dava de fazer algumas loucuras. Meu organismo não aguenta como antes”.

O tenente precisou se adaptar, pois com a retirada de mais de cinco metros de intestino, passou a usar três bolsas de colostomia e uma sonda adaptada para suplementação.

A nova realidade do PM, segundo ele, também é uma forma de inspirar outras pessoas a ter fé mesmo no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

“Perdi vários amigos pra essa doença, mas temos que acreditar em milagre. Compreendo como uma forma de aprendizado tudo o que passei. É um jeito que Deus tem de trabalhar em mim. Inclusive, para falar para outras pessoas que é preciso ter fé”.

Ferraz segue afastado do serviço da polícia com uma licença para tratamento de saúde. Ele passa o tempo em casa com a família e estudando para tocar flauta.

Investigações

Ao G1, a assessoria da Secretaria de Comunicação (Secom) do Governo de Rondônia informou que de acordo com a delegada Leisaloma Carvalho, o inquérito que apura as mortes do tenente Figueiredo e do sargento Rodrigues, segue com os agentes da Delegacia de Homicídios da capital, que colhem os dados e as provas dos crimes, no “sentido de elucidar os fatos e prender os acusados”.

A primeira fase das apurações e a reintegração já está cumprida, conforme informou a secretaria e agora, o trabalho segue na segunda fase que é mais complexa: com oitivas de testemunhas e suspeitos na participação do crime.

“Se busca neste momento elementos de provas, análises e técnicas. Mesmo sendo em local distante da capital, os esforços dos policiais civis que estão no caso tem sido fundamental na elucidação dos crimes”, conforme resposta da assessoria.

Feridos em operações

G1 entrou em contato com a assessoria da Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania (Sesdec) para saber o número de policiais militares afastados por ferimento em combate, durante operações da corporação. A assessoria de comunicação informou que não fica a critério da Sesdec responder, haja a vista que são dados das polícias e alguns casos podem estar em sigilo de investigação.

Fonte: G1

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