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Testosterona afeta produção de espermatozoides, diz estudo – 17/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Aos 32 anos, Geraldo Lopes descobriu que sete anos de uso de testosterona poderiam reduzir suas chances de ter filhos. Empresário de Surubim, no interior de Pernambuco, ele começou a usar o hormônio aos 24 por razões estéticas, sem diagnóstico de deficiência hormonal.

A testosterona trouxe ganho de força e massa muscular, Lopes afirma, mas afetou a produção de espermatozoides pelo organismo. Este é um dos riscos associados ao uso de testosterona, de acordo com um estudo publicado neste ano na revista International Brazilian Journal of Urology.

É o primeiro consenso brasileiro sobre reposição de testosterona. Elaborado pela SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), pela Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e pela Abemss (Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual), o artigo contraindica o uso de testosterona para homens que pretendem ter filhos no curto prazo.

O consenso surge em meio ao aumento do uso de testosterona como anabolizante por homens que não têm diagnóstico de deficiência hormonal, segundo as associações médicas. Apostar no hormônio para fins estéticos ou de desempenho, sem indicação médica, expõe os pacientes a efeitos adversos e pode comprometer a produção de espermatozoides.

Segundo Leonardo Seligra, supervisor da disciplina de medicina sexual do departamento de Andrologia, Reprodução e Sexualidade da SBU, todo homem que recebe testosterona exógena sofre alguma alteração na produção das células reprodutivas. A produção pode ser retomada após a suspensão do uso de hormônios, mas não é possível prever se haverá recuperação completa.

“O paciente às vezes acha que não vai ter problemas, e lá na frente vai tentar ter filhos e não consegue porque chegou a usar testosterona. Essa alteração pode ser permanente e é imprevisível. Não é possível dizer qual paciente vai ter problema e qual não vai ter problema permanente”, afirma.

Isso ocorre porque a testosterona aplicada de fora do organismo reduz a produção hormonal nos testículos, necessária para a formação dos espermatozoides.

Nos homens com hipogonadismo —condição em que o corpo não produz testosterona suficiente— e que precisam repor o hormônio, mas desejam preservar a fertilidade, uma alternativa é evitar a testosterona exógena e usar medicamentos que estimulem a produção natural.

Outra possibilidade é congelar o sêmen antes da reposição, caso ainda produza espermatozoides.

Geraldo conta que começou com testosterona em gel e depois passou para a versão injetável, alternando períodos de acompanhamento médico com outros de uso por conta própria. Ele diz não ter sido alertado sobre o risco de infertilidade.

Em seis meses de uso, ganhou 10 kg de massa muscular e passou a se sentir mais produtivo e disposto, afirma. Ao longo dos sete anos, também notou efeitos adversos como irritabilidade, acne e piora do aspecto da pele. “Comecei, como todo jovem, sem acompanhamento nenhum, só por estética e vaidade”, diz.

Segundo o endocrinologista Márcio Dytz, professor de medicina do Ceub (Centro Universitário de Brasília), doses abusivas de testosterona podem causar dependência. O paciente se acostuma à massa muscular e às mudanças de comportamento associadas aos níveis elevados do hormônio e pode ter dificuldade para aceitar a volta aos níveis naturais.

“Quando ele começa a ter uma testosterona normal, já acha que está ruim e volta a usar”, afirma Dytz. Segundo o professor, é comum que o paciente interrompa o uso por conta própria, perceba a queda dos níveis hormonais e volte a usar testosterona sem acompanhamento médico.

Geraldo conta que, em uma das pausas, ficou um ano sem testosterona. Nesse período, viu a carga baixar na musculação e sentiu ansiedade e uma espécie de desânimo até o corpo se readaptar.

“Você fica tão produtivo que não quer ficar sem.” Ele conta que até dormia menos quando usava testosterona. “Você dorme pouco, acorda bem, você tá com a vitalidade, força, energia. Por isso o pessoal usa e não para mais.”

Quando decidiu tentar ter um filho, Geraldo já havia sido aconselhado pelo médico a interromper o uso de testosterona para recuperar a produção hormonal e a fertilidade. Ele e a esposa tentaram engravidar enquanto ele ainda usava o hormônio, mas, após um resultado falso positivo, ele decidiu suspender definitivamente a testosterona.

O tratamento começou com a interrupção dos hormônios e o uso de medicamentos. Cerca de três meses depois, novos exames mostraram melhora no quadro, mas ainda distante do ideal. Cinco meses após o início do tratamento, a esposa engravidou.

“Eu tive muito medo de que eu não pudesse ter filhos. A verdade é esta. Eu pensei que não poderia ter mais”, conta.

A produção de espermatozoides costuma voltar após a interrupção do uso de hormônios, mas pode levar meses e, em alguns casos, anos. Segundo Seligra, da SBU, quanto maior for o tempo de uso e quanto mais anabolizantes forem combinados, menor pode ser a chance de recuperação. Em muitos casos a produção de espermatozoides chega a zero (azoospermia).

Uso inadequado de testosterona

Além do alerta sobre fertilidade, o consenso tenta evitar a prescrição de testosterona a homens que não têm deficiência hormonal. Segundo Seligra, a investigação deve começar pela avaliação dos sintomas.

“Os principais sintomas estão relacionados à sexualidade, como baixa libido e baixa disposição para iniciar uma atividade sexual”, afirma. A disfunção erétil também pode estar relacionada à deficiência de testosterona.

Ainda de acordo com Seligra, homens com sintomas e testosterona abaixo de 260 ng/dL (nanogramas por decilitro de sangue) podem ter deficiência hormonal. Acima de 350 ng/dL, a causa deve ser investigada por outros caminhos, como depressão, síndrome metabólica e obesidade.

Além das ameaças à fertilidade, o uso de testosterona em níveis elevados pode aumentar as taxas de colesterol e triglicérides e elevar o risco de trombose, infarto e AVC, afirma Seligra.

Fonte: Folha de S. Paulo

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