André Mendonça: dúvidas sobre os motivos da conversão - 11/09/2026 - Frederico Vasconcelos

Os homens de pouca fé têm motivos para questionar as razões que levaram o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a deixar a sociedade no Instituto Iter e transformar o negócio em entidade sem fins lucrativos.

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Já os fiéis seguidores do ministro-pastor devem conhecer os contratos do Iter com o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e com a administração municipal de Ricardo Nunes (MDB-SP).

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São clientes do instituto prefeituras e empresas privadas.

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A assessoria do ministro informou em nota a decisão de ceder a totalidade de suas cotas e de sua mulher, sem qualquer contrapartida financeira. O comunicado afirma que o instituto "criado em 2024" (a empresa foi aberta em 2023) está "reforçando sua vocação exclusivamente educacional e social".

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Na coluna da semana passada, tratamos das suspeitas de que Mendonça agiu para beneficiar o candidato Flávio Bolsonaro (PL).

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O ministro "terrivelmente evangélico" chegou ao STF com apoio de Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Na ocasião, agradeceu com demonstrações de bajulação e submissão ao então presidente Jair Bolsonaro.

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Seu currículo resumido no STF informa que é professor de direito "em renomadas instituições de ensino, como a Universidade de Salamanca e o Instituto Presbiteriano Mackenzie". Não cita o Instituto Iter.

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Registramos que a criação do Iter foi "uma tentativa de reproduzir o IDP de Gilmar Mendes, na trilha seguida pelo Ibajud, Justiça & Cidadania, Lide e grupo Esfera". Na ocasião, o ministro não quis comentar.

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O presidente do Iter é Victor Godoy Vieira, quinto ministro da Educação do governo Bolsonaro. Era secretário-executivo do ministro Milton Ribeiro, demitido quando vazou um áudio em que falava em priorizar repasses de verbas pedidos por pastores evangélicos a mando de Bolsonaro.

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O corpo docente do Iter reuniu advogados, ex-servidores do Ministério da Justiça e da Advocacia-Geral da União e delegados federais.

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Mendonça ministrou curso sobre "A arte e a ciência da oratória". Em curso para operadores do direito que trabalham com o Superior Tribunal de Justiça, a aula magna foi do ministro Marco Buzzi.

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Vale para Mendonça a observação de Joaquim Falcão, ex-conselheiro do CNJ, sobre os negócios de Gilmar: "Na medida em que você usa a autoridade como ministro do Supremo para ganhar dinheiro, temos uma questão ética".

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Quando Mendonça foi nomeado ministro da Justiça, registramos: "A bajulação explícita do pretenso indicado para a cadeira de Marco Aurélio no Supremo Tribunal Federal e o alinhamento fiel já demonstrado pelo ministro Kassio Nunes, ocupante da cadeira que foi de Celso de Mello, tornam difícil prever uma atuação independente de ambos, reveladora de distanciamento do presidente".

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Durante sua gestão na pasta da Justiça, registramos: "Interessado em agradar o capitão, pois aspira uma vaga no STF, o ministro da Justiça, André Mendonça, age como chefe de polícia e continua a usar a Lei de Segurança Nacional. Um entulho da ditadura, a lei tem embasado pedidos de investigação contra jornalistas e críticos do governo Bolsonaro".

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Mendonça foi introduzido nos eventos d’além-mar muito antes de Gilmar mencionar seu "erro crasso" (ele teria participado de conversas sobre uma delação). Detalhe: Gilmar não criticou o despreparo do PGR Paulo Gonet, seu ex-sócio no IDP.

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Em 2023, Mendonça estava no coquetel organizado em Lisboa pelo grupo Esfera Brasil em homenagem a Gilmar Mendes e sua então mulher, a advogada Guiomar Mendes.

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Relator no STF da ação que propôs a suspensão dos acordos de leniência da JBS, Mendonça confraternizou em Portugal com os irmãos Joesley e Wesley Batista.

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Em 2025, Mendonça previu, no Fórum de Lisboa, "a possibilidade de uma crise entre os Poderes". Ele afirmou: "As pesquisas de opinião indicam que há um descrédito da sociedade brasileira em relação às instituições. Nós podemos nos fazer de surdos para isso ou fazer uma autocrítica e tentar melhorar para o futuro. Esse é o papel da democracia".

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Em junho último, a Universidade de Coimbra e o Superior Tribunal de Justiça romperam a blindagem dos ministros e autoridades que frequentam convescotes no exterior e atribuem aos anfitriões o pagamento das despesas de convidados e parentes.

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O evento foi encerrado com palestra de André Mendonça. Seu gabinete informou que ele não recebeu diárias e que não houve remuneração. Mas não esclareceu quem pagou as despesas de viagem.

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Em 2021, Mendonça usou o lançamento de um livro da Fundação Getúlio Vargas, em Lisboa, para fazer campanha explícita por sua vaga no STF.

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Em 2019, Alexandre de Moraes e André Mendonça foram coordenadores do livro "Democracia e Sistema de Justiça", em homenagem aos dez anos de Dias Toffoli no STF.

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Toffoli, por sua vez, foi um dos organizadores de livro em homenagem a Augusto Aras. Paulo Gonet foi um dos articulistas.

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Moraes, Mendonça, Toffoli, Aras e Gonet estão entre os coautores da crise atual.

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Fonte: Folha de S. Paulo

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