Livro expõe bastidores de denúncia de torturas na ditadura - 04/08/2026 - Política

A advogada Eny Raimundo Moreira trabalhava no escritório do consagrado jurista Sobral Pinto no Rio de Janeiro e, a partir de 1978, passou a presidir o Comitê Brasileiro pela Anistia, uma iniciativa de familiares de presos políticos.

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Em meados do ano seguinte, a advogada mineira de 33 anos não tirava da cabeça uma hipótese que lhe soava como pesadelo: e se os militares queimarem todos os processos judiciais de 1964 em diante? E se sumirem com os documentos que comprovariam a ocorrência de assassinatos e torturas, além da omissão do Judiciário?

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Eny tinha ouvido Sobral Pinto, meio século mais velho que ela, contar que os arquivos do Estado Novo tinham sido incinerados nas semanas finais da ditadura de Getúlio Vargas.

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Uma portaria publicada naquela época permitia que advogados retirassem do Superior Tribunal Militar (STM), em Brasília, os processos em que seus clientes eram investigados, com a condição de que fossem devolvidos no dia seguinte.

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Ciente de que era preciso iniciar a reprodução desses documentos o mais rápido possível, Eny convenceu o amigo Luiz Eduardo Greenhalgh, outro advogado atuante no combate à ditadura, a se juntar a ela nesta causa de preservação da memória.

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Foram, ao final, mais de 1 milhão de páginas reproduzidas, a base para um livro lançado em 1985, "Brasil: Nunca Mais", que revela uma série de abusos do regime autoritário com uma clareza e uma abrangência jamais vistas até então.

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Esse movimento inicial de Eny, que morreu em 2022, é uma das histórias contadas pelo jornalista Camilo Vannuchi em "Nunca Mais - Os Bastidores da Maior Denúncia contra a Tortura Já Feita no Brasil", que detalha a coragem e a persistência de um grupo de mais de 20 pessoas à frente do projeto sigiloso de quatro décadas atrás.

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Em suma, um livro sobre um livro.

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Ao longo de pouco mais de 200 páginas, o autor lembra os contatos dos dois advogados com dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, e o pastor presbiteriano Jaime Wright, líderes religiosos que correram riscos em nome da iniciativa.

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Uma das tarefas de Wright era trazer o dinheiro para financiar a força-tarefa, uma missão conduzida por ele ao longo de cinco anos a partir de 1980.

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A cada dois ou três meses, o pastor ia à sede do Conselho Mundial de Igrejas, na Suíça, que recolhia as doações para o projeto de Eny e companhia. Retornava ao Brasil com um maço de notas dentro de uma doleira, uma espécie de pochete presa sobre a cueca. Ao desembarcar no país, Wright ligava para os colegas e avisava: "Os chocolates chegaram".

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O novo livro também mostra a relevância do advogado Sigmaringa Seixas e do jornalista Paulo Vannuchi (pai do autor), que assumiu a coordenação da análise dos processos, atividade que deveria correr sob forte discrição.

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A eles se uniram as sociólogas Leda Corazza e Vanya Sant'Anna e a historiadora Ana Maria Camargo, entre outros colaboradores, em uma sala escondida no último andar do instituto Sedes Sapientiae, o primeiro dos espaços ocupados em São Paulo.

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"A cada dia que passava e a cada lote analisado, aumentava a certeza de que a tortura, o terrorismo de Estado e desaparecimento forçado eram práticas sistemáticas, que seguiam um padrão, que obedeciam a uma hierarquia e a uma cadeia de comando, e que eram um modus operandi estrutural, jamais conjuntural. E tudo isso constava em documentos oficiais, o que beirava o realismo fantástico", escreve Camilo Vannuchi.

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Em meados de 1984, a equipe havia concluído um relatório de quase 7.000 páginas a partir da avaliação de mais de 700 processos. Dom Paulo, porém, insistiu para que fizessem um livro de, no máximo, 300 páginas, um produto acessível ao público geral.

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Nessa reta final, os jornalistas Ricardo Kotscho e Frei Betto foram convidados para preparar essa versão mais objetiva, conforme queria o arcebispo.

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Lançado em julho de 1985, o livro ganhou destaque na imprensa. "O porão da guerra suja", registrou a revista Senhor. "Brasil: Nunca Mais acusa 444 da prática de tortura", noticiou a Folha. Ficou cerca de seis meses no topo da lista dos livros de não ficção mais vendidos e logo foi publicado em outros países.

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Além disso, os documentos de "Brasil: Nunca Mais" contribuíram para os resultados das Comissões da Verdade nas décadas seguintes.

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Anos depois de ver sua obsessão transformada em um best-seller, Eny comentou: "A história do país deixou de ser contada só por quem vence".

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Fonte: Folha de S. Paulo

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