Um sistema de correntes do oceano Atlântico enfraquecido pelo aquecimento global pode se recuperar ao longo do tempo caso o clima esfrie, mostrou, na última quarta-feira (14), um estudo do Instituto Meteorológico Dinamarquês.
A Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) transporta águas quentes dos trópicos em direção ao norte, rumo ao Ártico, e esse fluxo ajuda a manter amenos os invernos europeus.
Publicado na revista Science Advances, o estudo não encontrou indícios de um ponto de não retorno irreversível para a AMOC, como sugeriram algumas pesquisas anteriores, embora os efeitos das mudanças possam perdurar por séculos.
No entanto, o estudo também afirmou que a camada de gelo da Groenlândia —que contribui para o enfraquecimento da AMOC ao despejar água doce e fria no oceano— não poderia ser restaurada depois de derreter, mesmo que a tendência de aquecimento fosse revertida.
Uma perturbação na AMOC ainda poderia desestabilizar os padrões globais de chuva e acelerar a elevação do nível do mar nas regiões costeiras.
Ponto de não retorno
Segundo o estudo, a AMOC poderia desacelerar dos atuais cerca de 17 milhões de metros cúbicos de água por segundo para aproximadamente 6 milhões diante de um aquecimento global de cerca de 7°C.
“Em nosso modelo, não observamos um ponto de não retorno que leve ao colapso. A AMOC enfraquece gradualmente, mas constatamos que também começa imediatamente a recuperar sua força caso o aquecimento global seja revertido”, disse o principal autor, Chuncheng Guo.
Ele alertou, porém, que, embora a recuperação comece assim que as temperaturas caem, sua conclusão pode levar vários séculos, período durante o qual os efeitos do enfraquecimento da corrente persistiriam.
A elevação de 7°C usada na modelagem para fins de investigação científica está muito além das projeções atuais para a tendência de aquecimento.
O órgão ambiental da ONU afirmou em setembro que a elevação da temperatura global deverá ultrapassar o limite crucial de 1,5°C dentro de poucos anos. Pelo Acordo de Paris de 2015, os governos se comprometeram a limitar o aumento da temperatura a 1,5°C para reduzir os impactos de eventos climáticos extremos.
O ritmo de resfriamento necessário para reverter o enfraquecimento da AMOC também está além do que é considerado realista com a tecnologia atual, acrescentou Guo, destacando uma limitação do estudo, baseado em um único modelo. Segundo a pesquisa, também seriam necessários novos testes com outros modelos.
Willem Huiskamp, do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que não participou do estudo, afirmou que uma AMOC mais estável seria uma boa notícia, mas disse duvidar que a corrente no mundo real seja tão estável quanto sugerem alguns modelos.
Os pesquisadores estimaram uma elevação de longo prazo do nível do mar de cerca de 20 cm devido ao derretimento da camada de gelo da Groenlândia após um aumento de 1,5°C e pediram ações mais rápidas para conter as emissões.
“Em vez de depender de um resfriamento global, é uma estratégia muito, muito mais segura evitar que o aquecimento aconteça desde o início”, disse Guo.