Em janeiro de 2016, Donald Trump, então pré-candidato republicano à Casa Branca, disse que poderia parar no meio da Quinta Avenida, atirar em alguém e, ainda assim, não perder nenhum voto.
Era um jeito hiperbólico de dizer que nem um assassinato a sangue-frio na famosa via nova-iorquina abalaria o que analistas norte-americanos chamaram de fator lealdade: a convicção de que sua base lhe permaneceria fiel não importa o que acontecesse.
Uma década atrás, eu acompanhava a campanha presidencial dos Estados Unidos como correspondente da Folha em Nova York. Vi de perto a perplexidade provocada por um homem que parecia desafiar o que muitos tomavam como cláusulas pétreas da política tradicional.
Dana Milbank, à época colunista do The Washington Post, prometeu engolir as próprias palavras caso Trump superasse outros 16 pré-candidatos dentro do partido, tamanha sua descrença nessa hipótese. Pois bem: bateu todos eles, e um chef preparou um prato cujo ingrediente principal era o jornal impresso com a previsão furada. Milbank disse que descartaria receitas enviadas por leitores trumpistas mais raivosos. “Dispensei sugestões inúteis para consumir minha coluna com cianeto ou excremento.”
Trump acumulou declarações preconceituosas naquela corrida, como chamar imigrantes mexicanos de estupradores e criminosos, propôr barrar a entrada de muçulmanos no país e ridicularizar um jornalista com deficiência. Parecia haver sempre uma nova razão para que sua candidatura implodisse, mas o que vingou foi a fórmula da massa de bolo: quanto mais batiam nela, mais ela crescia.
A semanas do pleito, a divulgação de uma gravação antiga em que ele se gabava de sua abordagem às mulheres (“grab by the pussy”; uma tradução leve seria “agarrá-las pela vagina”) instalou um barata-voa em sua equipe. Líderes republicanos retiraram o apoio a Trump. Ele? Minimizou o áudio como “conversa de vestiário” e seguiu adiante. O escândalo não foi o Deus-nos-acuda que rivais e até aliados esperavam.
O mesmo padrão se manifestava em outras frentes. Trump se recusava a divulgar suas declarações fiscais, praxe histórica entre candidatos, e enfrentava processos relacionados à Trump University. A investigação sobre uma interferência russa na eleição também seria um zunido eleitoral persistente.
O republicano frequentemente invertia a acusação. Apresentava-se como vítima de uma conspiração, perseguido por uma imprensa que o detestava e pelo establishment político.
Dez anos depois, a eleição brasileira oferece um paralelo para o modo “vou fingir que nem vi” adotado pela base trumpista. Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta Lula (PT) no segundo turno e demonstra uma resiliência que desafia a expectativa de que denúncias, por si sós, sejam capazes de corroer intenções de voto.
Entre os tsunamis que viraram marolas estão as mensagens trocadas com Daniel Vorcaro, a quem o senador chamou de “irmão” e disse que “estou e estarei contigo sempre”. O contexto: negociavam recursos milionários para uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro (PL). A defesa de Flávio foi dizer que se tratava de patrocínio privado, sem abrir a prestação de contas.
Flávio ainda esteve com o ex-banqueiro, isso depois que Vorcaro foi solto com tornozeleira eletrônica, após sua primeira prisão. Confirmou a visita só quando ela veio à tona. Disse que encontrou o ex-banqueiro “para botar um ponto final nessa história”.
O imbróglio gerou num primeiro momento pontos de interrogação sobre sua capacidade de se viabilizar como candidato forte. Ele chegou à frente de Lula no primeiro turno.
O entorno de Flávio também está chamuscado. Reportagem da revista piauí revelou que mais de 70% das interações de Vorcaro com políticos em celular apreendido se deram com membros do governo Bolsonaro —e 9 em cada 10 com nomes da direita de forma geral.
A Polícia Federal também investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo a relação de Flávio com o advogado Willer Tomaz. O senador figura como “usuário master” de uma conta bancária vinculada a uma empresa do amigo.
Soma-se a esse histórico um esquema que hoje soa até vintage, as chamadas rachadinhas. O procedimento foi atingido por decisões judiciais que invalidaram provas e anularam o caso.
Não se trata de dizer que o outro lado é insuspeito de corrupção, porque não é. Lula e asseclas também estão implicados em casos que merecem investigação e inclusive municiam a turma de Flávio nesta campanha. Resta entender por que a exposição negativa parece colar mais num lado do que no outro.
É o tal do efeito Teflon: acusações que escorregam pela superfície do candidato sem aderir à sua imagem perante parte considerável do público. Não que os fatos sejam irrelevantes, nem que os eleitores os desconheçam. Quando a identidade política se torna também uma identidade afetiva, uma denúncia pode ser percebida como um ataque ao próprio grupo.
Se o adversário (Lula, no caso) é considerado uma ameaça maior, as falhas do candidato preferido podem parecer secundárias. Se a imprensa e as instituições são vistas com desconfiança, fatos desabonadores que partem delas podem reforçar a narrativa de perseguição.
Para o cientista político Carlos Melo, coordenador do Observatório da Política do Insper, as denúncias pegam, sim, contra Flávio —que, assim como Lula, tem uma alta rejeição popular.
O apoio a Flávio não se deve à “carinha bom moço” ou à falta de evidências, reforça Melo. O antipetismo é que lhe serve de escudo protetor. Para uma parcela graúda de seu eleitorado, a escolha envolve sobretudo a aversão a Lula e ao PT, a identificação com o legado político de Jair Bolsonaro e a premissa de que o primogênito de Jair representa um campo ideológico sob ataque. Repetir uma denúncia pode ter efeito limitado nessas condições anormais de pressão e temperatura política.