Secas vão ficar mais longas e intensas no Sudeste – 24/08/2026 – Cotidiano

Os períodos de seca vão ficar mais longos e intensos no Sudeste nas próximas décadas. Essa é a conclusão de um estudo de pesquisadores da Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos) e da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

A projeção foi publicada na sexta-feira (21) na Revista Brasileira de Recursos Hídricos. Os pesquisadores utilizaram o Drip (Drought Representation Index), um índice de desempenho de modelos climáticos para representação de secas.

Levando também em consideração os indicadores de mudanças climáticas, eles tentaram projetar como serão os períodos de estiagem na bacia do rio Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento de 20 milhões de pessoas em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

O índice Drip considera três fatores para a avaliação das secas: duração, severidade e intervalo entre um período e outro.

Entre os anos de 2021 e 2060, as temporadas de seca devem durar em média 13 meses, ante os nove meses no período histórico observado até agora. Já entre 2061 e 2100, os eventos de estiagem devem chegar a 16 meses de duração.

O estudo também tentou calcular a intensidade das secas que as populações dos três Estados do Sudeste devem enfrentar até o final do século 21.

“A severidade é um índice que tem a ver com o volume de água. Quanto mais severa é a seca, menor é o volume de chuvas nesse período analisado”, explica Ályson Estácio, pesquisador da Funceme e um dos autores do estudo.

Enquanto o índice de severidade observado até o momento é de 7,35, até o final do século ele vai chegar a 18,35, segundo o estudo.

A projeção também considerou o intervalo entre os períodos de seca, índice conhecido como “período de retorno”. “Esse indicador aponta o tempo de ‘trégua’, ou seja, o tempo disponível para a recuperação do sistema hídrico antes da próxima seca”, explica Estácio.

As projeções apontaram um aumento desse intervalo, tornando os eventos um pouco mais raros. Até o momento, a média desse intervalo na bacia do rio Paraíba do Sul é de 18 meses.

Entre 2021 e 2060, ele deve pular para 20 meses. Nas décadas seguintes, entre os anos 2061 e 2100, o intervalo entre as secas deve ser de 23 meses.

O pesquisador Ályson Estácio, no entanto, pondera sobre esse resultado.

“À primeira vista, ele parece positivo. Mas não é bem assim. Os eventos de seco serão um pouco mais raros, porém, eles serão mais intensos e duradouros. Os efeitos das secas serão muito piores”, explica.

Na publicação, os pesquisadores propõem algumas medidas para tentar diminuir os impactos desses eventos mais intensos na região.

“Hoje, os planos e projetos de novas represas não consideram as mudanças climáticas. É indispensável atualizar esses métodos de cálculo e as normas de gestão de recursos hídricos”, diz.

Ele cita como exemplo a criação de “gatilhos de seca”. “Quando um reservatório atinge 60% da capacidade, por exemplo, os planos de emergência e controle de abastecimento poderiam ser acionados, antecipando as medidas de mitigação e adaptação”, diz.

Ele também acredita em uma gestão participativa dos reservatórios com maior presença de setores da sociedade.

“Seria muito importante desenvolver ferramentas participativas de controle e conscientização de consumo para setores específicos, como agricultura, indústria e abastecimento urbano, para evitar o esgotamento precoce dos sistemas de abastecimento”, explica.

Nesse cenário, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de SP) afirmou em nota que seu planejamento para períodos mais longos de seca contempla “ações voltadas à ampliação da segurança hídrica, diversificação das fontes de abastecimento, integração dos sistemas produtores, redução de perdas e aumento da capacidade de reservação”.

Segundo a companhia, até 2030 estão previstos investimentos de R$ 7,8 bilhões em projetos de segurança e resiliência hídrica na região metropolitana de São Paulo.

“A Sabesp também utiliza tecnologias como imagens de satélites combinadas com inteligência artificial, sensores em redes, válvulas automatizadas e operação remota para identificar vazamentos, controlar pressões e melhorar a eficiência do sistema”, disse a empresa, em nota à Folha.

Fonte: Folha de S. Paulo